"A mudança sempre foi uma característica de tudo o que vive, especialmente a vida orgânica, marcada por um sistema de trocas, de retroalimentação constante, e, mesmo o inorgânico, uma pedra, hoje sabemos, também esta em movimento. Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, dizia Heráclito, não apenas porque as águas correm, mas porque nós também não somos o mesmo, nunca. Assim como a natureza, a cultura sempre esteve marcada por mudanças, me lembro do meu avo assistindo TV e esbravejando a perdição da juventude. Com tudo isso, podemos perguntar, o que há de novo nos impasses que a cultura hoje enfrenta?
Acredito que exista sim uma especificidade em nosso tempo, que instaura uma mudança nas estruturas mais profundas da cultura. Não vivemos, eu penso, apenas uma mudança, mas uma interseção de mudanças que aponta para a emergência de um novo homem e de uma nova sociedade. Três são os eixos desta transformação: a exaustão ambiental e a instabilidade climática, gritando em nossos ouvidos a fragilidade da cultura e reinstaurando o valor da vida; a revolução tecnológica com sua radical mudança de meios, fazendo a civilização sair de um modelo linear de raciocínio e comunicação para um modelo complexo que se estrutura em redes; uma reordenação nas relações de poder da sociedade, que, em função da crise ambiental e das novas tecnologias, sai do modelo piramidal para uma estrutura hierárquica horizontalizada onde quem manda e quem obedece estão sempre muito próximos, além de uma reordenação econômica que se deu entre países ricos, pobres e emergentes. Da somatória destes três eixos temos como resultante uma radical e profunda mudança de valores, e toda mudança de valores traz conseqüências significativas. Estamos saindo, hoje, de um capitalismo de produtos para um capitalismo de conceitos, do real ou do atual para o virtual. Diante de novas e inusitadas questões, diante da queda de valores e da emergência de novos, torna-se necessário voltar ao começo: quem somos, quem queremos ser e qual a sociedade em que queremos viver?

Breve artigo escrito por Viviane Mosé sobre sua obra "O homem que sabe - do Homo Sapiens à crise da razão"
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