Na sociedade do espetáculo, somos levados a acreditar que podemos ter muitas vidas dentro de uma só. A cada cinco anos posso mudar de pele. A cada ano decido que tipo de professor quero ser, que tipo de filho, que tipo de mãe, que tipo amante, de esposa... tudo com a suave ilusão de que está-se livre (democrática e liberalmente livre!) para se ser o que quiser. Na verdade, por baixo de todos os figurinos que o sistema lhe permite encarnar estão as camisas-de-força do Consumidor. É esta condição que, nessa sociedade, permite que sejamos o que quisermos, desde um punk revoltado (com a camisa do sex pistols) ou um socialista saudosista (com a camisa do Che).
Mas... sob todas as roupas que nos vestiram - em nossas peles - o que está inscrito?
Vamos vivendo, olhando somente para o que estamos parecendo no palco. Não estamos de olho em nosso passado – imagine se no futuro! O que queremos que nossas vidas se transformem? O que estamos planejando para deixar com os outros? Que idéias eu, miserável eu, estou propagando pelo mundo? É o papel que eu queria? Ou é o que sou?
A questão é muito mais complicada. Tão complicada quanto chegar-se à frente do espelho para tirar a maquiagem dos papéis que interpretastes durante o dia, e de súbito, ver tua face escorrendo pelo ralo da pia. Esquecemos nossa face, esquecemos de quem somos = nossas vidas não nos pertencem mais.
Será que você é capaz de escrever sua biografia – mas não simplesmente olhando para o passado (essa seria a parte mais fácil), mas olhando para o futuro? É favor não confundir com uma experiência de atar-se à promessas de ano novo, é muito mais que isso: é definir, com base no que se viveu e no que se é (se é que ainda se “é”) aquilo que se é projeto de si.
O objetivo não é ser lembrado. É não se esquecer.

