Se você acha que possui liberdade de pensamento, está cruelmente enganado. Infelizmente, nossa cultura ocidental já te impõe certos pensamentos embutidos: escolher uma profissão que te dê um ótimo retorno financeiro – o “bom” não é suficiente – , casar-se, ter filhos, construir uma casa, viajar todos os anos para gastar seu salário em restaurantes finos e hotéis cinco estrelas, trabalhar até seus joelhos não mais suportarem, e passar estabilidade financeira e social para SUA família. Em suma: fazer a SUA carreira, baseada no individualismo capitalista. Esse é o sonho enlatado que compramos da indústria cultural, e o único considerado um verdadeiro objetivo de vida; pessoas que tenham outras metas são consideradas excêntricas.
Analisemos agora como, desde a sua infância, isso é pressionado contra sua mente: o sonho de todo pai é que seu filho se torne um advogado, um médico ou um engenheiro. Aliás, esse não é somente o sonho dos pais: é o que a sociedade como um todo espera de você. Fazer aquilo que se gosta não é válido; afinal de contas, você é feliz se você consome. É por isso, inclusive, que almejam te colocar numa escola particular renomada. E essas escolas são verdadeiras máquinas de treinar estudantes para a prova mais estressante e mais esperada da vida de um jovem da classe média: o vestibular, que, na teoria, não deveria nem existir, porque educação é um direito de toda a população (Brasil: um país de todos?). Digo da classe média porque um estudante pobre que estuda numa escola pública – e leia-se aí deficiente – dificilmente terá chances de concorrer com outro de uma escola particular – e ele sabe disso –, e a elite pode pagar uma universidade cara para seu filho; e é essa a nossa democracia.

Ao entrar numa escola particular, você logo de início é bombardeado com uma quantidade absurda de informações: fórmulas, detalhes, macetes, fatos, atualidades, o diabo a quatro. Todo o conhecimento acumulado, a partir de então, terá um único fim: vestibular, vestibular, vestibular. Não te ensinam, necessariamente, para que você está aprendendo tudo aquilo: você simplesmente “memoriza” (os professores não gostam do verbo “decorar”) para a tal maldita prova. Noções básicas de cidadania, que seriam deveras úteis para você e para a sociedade, foram totalmente esquecidas, porque não são cobradas pela FUVEST. E, além disso, quem se importa com a sociedade? VOCÊ produz, VOCÊ consome, VOCÊ trabalha e com isso acha que está fazendo sua parte. “Assim, pelo menos, faço a economia do país girar”. O Brasil é a oitava economia do mundo. Você realmente está satisfeito com isso? Acha que isso é o reflexo da nossa realidade? Dê uma olhada em Brasília. Dê uma olhada no Nordeste. Dê uma olhada na periferia da sua cidade. O que você faz por eles? Se ainda está satisfeito, é melhor rever seus conceitos.
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| Retirantes - Portinari |
O que fizeram com você? Fizeram você pensar que a escola, a faculdade ou o trabalho são as coisas pelas quais você vive. Ou seja, você vive para você mesmo. Qual o sentido de se viver em sociedade, quando o seu umbigo é a única coisa que importa? Ou você faz alguma coisa para ajudar nas deficiências e emergências do seu meio, ou você não tem função social alguma e está fora. Desde os primórdios, essa é a lei moral e ética de um grupo. Quem nunca ouviu um professor dizer: “Estude sete horas por dia, passe em medicina, ganhe dinheiro e seja feliz”, quando o eticamente correto seria “Faça alguma coisa de útil para a humanidade”? O capitalismo te ensina a competição – algo que soa como um paradoxo para nós, que vivemos em grupo – quando o sistema deveria te ensinar, isso sim, a trabalhar em equipe. Em vez disso, você passa grande parte da sua vida estudando números complexos, eletricidade, angiospermas, orações subordinadas, tudo isso para garantir a SUA vaga no mercado de trabalho, e “o problema do outro não é problema seu”. Você se acha intelectual e culto porque sabe tudo sobre a política atual ou sobre a filosofia clássica. E sobre a filosofia moderna, já leu alguma coisa? Conhece Francis Bacon e sua filosofia utilitarista, que defende a utilização da filosofia no mundo prático? Não? Bom, então acho que você não é tão culto assim. Viver em sociedade não é simplesmente colocar-se no meio dela e cuidar de você mesmo.
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Você, o culto, se não se considera alienado, é então um conformado – o que, na minha simplória opinião, é ainda pior, pois você não faz porque não quer, e não porque não sabe o que deve fazer. E digo mais: existem mais pessoas conformadas do que alienadas. Portanto, se você já abriu os olhos – o que não basta –, está na hora de começar a se mexer. Agora.