Mostrando postagens com marcador presente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador presente. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Se nossos olhos fossem espelhos, Ai de nós...

Estaríamos escrevendo nossas próprias biografias... mas teríamos orgulho delas?


Na sociedade do espetáculo, somos levados a acreditar que podemos ter muitas vidas dentro de uma só. A cada cinco anos posso mudar de pele. A cada ano decido que tipo de professor quero ser, que tipo de filho, que tipo de mãe, que tipo amante, de esposa... tudo com a suave ilusão de que está-se livre (democrática e liberalmente livre!) para se ser o que quiser. Na verdade, por baixo de todos os figurinos que o sistema lhe permite encarnar estão as camisas-de-força do Consumidor. É esta condição que, nessa sociedade, permite que sejamos o que quisermos, desde um punk revoltado (com a camisa do sex pistols) ou um socialista saudosista (com a camisa do Che).

Mas... sob todas as roupas que nos vestiram - em nossas peles - o que está inscrito?

Vamos vivendo, olhando somente para o que estamos parecendo no palco. Não estamos de olho em nosso passado – imagine se no futuro! O que queremos que nossas vidas se transformem? O que estamos planejando para deixar com os outros? Que idéias eu, miserável eu, estou propagando pelo mundo? É o papel que eu queria? Ou é o que sou?

A questão é muito mais complicada. Tão complicada quanto chegar-se à frente do espelho para tirar a maquiagem dos papéis que interpretastes durante o dia, e de súbito, ver tua face escorrendo pelo ralo da pia. Esquecemos nossa face, esquecemos de quem somos = nossas vidas não nos pertencem mais.

Será que você é capaz de escrever sua biografia – mas não simplesmente olhando para o passado (essa seria a parte mais fácil), mas olhando para o futuro? É favor não confundir com uma experiência de atar-se à promessas de ano novo, é muito mais que isso: é definir, com base no que se viveu e no que se é (se é que ainda se “é”) aquilo que se é projeto de si.

O objetivo não é ser lembrado. É não se esquecer.

domingo, 10 de outubro de 2010

ABRA OS OLHOS. E MEXA-SE!



Se você acha que possui liberdade de pensamento, está cruelmente enganado. Infelizmente, nossa cultura ocidental já te impõe certos pensamentos embutidos: escolher uma profissão que te dê um ótimo retorno financeiro – o “bom” não é suficiente – , casar-se, ter filhos, construir uma casa, viajar todos os anos para gastar seu salário em restaurantes finos e hotéis cinco estrelas, trabalhar até seus joelhos não mais suportarem, e passar estabilidade financeira e social para SUA família. Em suma: fazer a SUA carreira, baseada no individualismo capitalista. Esse é o sonho enlatado que compramos da indústria cultural, e o único considerado um verdadeiro objetivo de vida; pessoas que tenham outras metas são consideradas excêntricas.
Analisemos agora como, desde a sua infância, isso é pressionado contra sua mente: o sonho de todo pai é que seu filho se torne um advogado, um médico ou um engenheiro. Aliás, esse não é somente o sonho dos pais: é o que a sociedade como um todo espera de você. Fazer aquilo que se gosta não é válido; afinal de contas, você é feliz se você consome. É por isso, inclusive, que almejam te colocar numa escola particular renomada. E essas escolas são verdadeiras máquinas de treinar estudantes para a prova mais estressante e mais esperada da vida de um jovem da classe média: o vestibular, que, na teoria, não deveria nem existir, porque educação é um direito de toda a população (Brasil: um país de todos?). Digo da classe média porque um estudante pobre que estuda numa escola pública – e leia-se aí deficiente – dificilmente terá chances de concorrer com outro de uma escola particular – e ele sabe disso –, e a elite pode pagar uma universidade cara para seu filho; e é essa a nossa democracia.
Ao entrar numa escola particular, você logo de início é bombardeado com uma quantidade absurda de informações: fórmulas, detalhes, macetes, fatos, atualidades, o diabo a quatro. Todo o conhecimento acumulado, a partir de então, terá um único fim: vestibular, vestibular, vestibular. Não te ensinam, necessariamente, para que você está aprendendo tudo aquilo: você simplesmente “memoriza” (os professores não gostam do verbo “decorar”) para a tal maldita prova. Noções básicas de cidadania, que seriam deveras úteis para você e para a sociedade, foram totalmente esquecidas, porque não são cobradas pela FUVEST. E, além disso, quem se importa com a sociedade? VOCÊ produz, VOCÊ consome, VOCÊ trabalha e com isso acha que está fazendo sua parte. “Assim, pelo menos, faço a economia do país girar”. O Brasil é a oitava economia do mundo. Você realmente está satisfeito com isso? Acha que isso é o reflexo da nossa realidade?  Dê uma olhada em Brasília. Dê uma olhada no Nordeste. Dê uma olhada na periferia da sua cidade. O que você faz por eles? Se ainda está satisfeito, é melhor rever seus conceitos.
Retirantes - Portinari
O que fizeram com você? Fizeram você pensar que a escola, a faculdade ou o trabalho são as coisas pelas quais você vive. Ou seja, você vive para você mesmo. Qual o sentido de se viver em sociedade, quando o seu umbigo é a única coisa que importa? Ou você faz alguma coisa para ajudar nas deficiências e emergências do seu meio, ou você não tem função social alguma e está fora. Desde os primórdios, essa é a lei moral e ética de um grupo. Quem nunca ouviu um professor dizer: “Estude sete horas por dia, passe em medicina, ganhe dinheiro e seja feliz”, quando o eticamente correto seria “Faça alguma coisa de útil para a humanidade”? O capitalismo te ensina a competição – algo que soa como um paradoxo para nós, que vivemos em grupo – quando o sistema deveria te ensinar, isso sim, a trabalhar em equipe. Em vez disso, você passa grande parte da sua vida estudando números complexos, eletricidade, angiospermas, orações subordinadas, tudo isso para garantir a SUA vaga no mercado de trabalho, e “o problema do outro não é problema seu”. Você se acha intelectual e culto porque sabe tudo sobre a política atual ou sobre a filosofia clássica. E sobre a filosofia moderna, já leu alguma coisa? Conhece Francis Bacon e sua filosofia utilitarista, que defende a utilização da filosofia no mundo prático? Não? Bom, então acho que você não é tão culto assim. Viver em sociedade não é simplesmente colocar-se no meio dela e cuidar de você mesmo.
http://www.flickr.com/photos/alexhailong/137441501
Você, o culto, se não se considera alienado, é então um conformado – o que, na minha simplória opinião, é ainda pior, pois você não faz porque não quer, e não porque não sabe o que deve fazer. E digo mais: existem mais pessoas conformadas do que alienadas. Portanto, se você já abriu os olhos – o que não basta –, está na hora de começar a se mexer. Agora.