domingo, 20 de novembro de 2011

Rodas, Rodas, Rodas, caranguejo peixe é!

[Notícia retirada do Viamundo, link original AQUI ]

Relatório da Secretaria de Direitos Humanos confirma: Reitor da USP votou contra vítimas da ditadura

por Conceição Lemes

A Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República lançou em agosto de 2007 o livro-relatório Direito à Memória e à Verdade: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Assinam a apresentação Paulo Vannuchi e Marco Antônio Rodrigues Barbosa, na época, ministro da Secretaria de Direitos Humanos e presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), respectivamente. Lá, afirmam:

“A violência, que ainda hoje assusta o País como ameaça ao impulso de crescimento e de inclusão social em curso deita raízes em nosso passado escravista e paga tributo às duas ditaduras do século 20. Jogar luz no período de sombras e abrir todas as informações sobre violações de Direitos Humanos ocorridas no último ciclo ditatorial são imperativos urgentes de uma nação que reivindica, com legitimidade, novo status no cenário internacional e nos mecanismos dirigentes da ONU”.

O livro é o resultado do trabalho desenvolvido ao longo de 11 anos (janeiro de 1996 a dezembro de 2006) pela CEMDP, que foi criada para três tarefas: reconhecer formalmente caso por caso, aprovar a reparação indenizatória e buscar a localização dos restos mortais que nunca foram entregues para sepultamento.

Instituída por lei, era composta de sete integrantes: um deputado da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, uma pessoa ligada às vítimas da ditadura, um representante das Forças Armadas, um membro do Ministério Público Federal e três pessoas livremente escolhidas pelo presidente da República.

Entre as pessoas escolhidas pelo então presidente Fernando Henrique, o jurista João Grandino Rodas, atual reitor da Universidade de São Paulo (USP). Ele integrou a CEMDP desde a sua criação, em dezembro de 1995, a dezembro de 2002, representando o Ministério das Relações Exteriores.

“O mesmo Rodas que permitiu a ação truculenta da PM no campus da USP há uma semana [8 de novembro] deu uma mãozinha para os carrascos das vítimas da ditadura de 1964 a 1985”, observa Carlos Lungarzo, membro da Anistia Internacional. “Na CEMDP, ele votou contra a culpabilidade do Estado pela morte e desaparecimento de vários presos políticos.”

Essa informação levou esta repórter a pesquisar os votos de João Grandino Rodas no livro-relatório Direito à Memória e à Verdade. E, de fato, dos pedidos em que ele foi desfavorável, pelo menos 11 acabaram sendo deferidos pela CEMDP. Nesses casos, curiosamente, Rodas votou como o general Oswaldo Pereira Gomes, representante das Forças Armadas, e/ou promotor Paulo Gustavo Gonet Branco, representante do Ministério Público Federal.

ZUZU ANGEL: “OBRA DOS MESMOS ASSASSINOS DO MEU AMADO FILHO”

O caso da estilista Zuleika Angel Jones, conhecida como Zuzu Angel, é um deles. Mãe da jornalista Hildegard Angel, sua morte foi desdobramento da morte de seu filho Stuart Edgard Angel Jones, assassinado sob terríveis torturas na Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro,em 1971.

Sobre o caso de Zuzu Angel, o livro Direito à Memória e à Verdade revela:

Zuleika Angel Jones (1923 – 1976)

Número do processo: 237/96

Data e local de nascimento: 05/06/1923, Curvelo (MG)

Filiação: Francisca Gomes Netto e Pedro Netto

Organização política ou atividade: denúncia da morte do filho como resultado de torturas.

Data e local da morte: 14/04/1976, Rio de Janeiro (RJ)

Relator: Luís Francisco Carvalho Filho

Deferido em: 25/03/1998 por 4×3 (votos contra do general Oswaldo Pereira Gomes, Paulo Gonet Branco e João Grandino Rodas)

“Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”. O trecho da carta escrita em 23/04/1975 pela estilista Zuleika Angel Jones, conhecida como Zuzu Angel, entregue ao compositor Chico Buarque e outros amigos, representou uma verdadeira premonição a respeito de sua morte um ano depois.

Zuzu Angel morreu em 14/04/1976, num acidente automobilístico à saída do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro. A suspeita de que esse acidente tivesse sido provocado envolveu imediatamente todas as pessoas bem informadas sobre o que era o aparelho de repressão política do regime militar. Mas foi somente através da CEMDP que se tornou possível elucidar os fatos. Restou provado que sua morte foi desdobramentoe conseqüência da morte de seu filho Stuart Edgard Angel Jones, em 1971, caso já apresentado neste livro-relatório.

Profissional de sucesso – vestia atrizes como Liza Minnelli e Joan Crawford –, Zuzu conseguiu transformar o desaparecimento de seu filho Stuart num acontecimento que provocou forte desgaste internacional para o regime militar brasileiro. Com isso, despertou a ira dos porões da ditadura, que passaram a vê-la como ameaça. Buscando incansavelmente o paradeiro do filho, esteve nos Estados Unidos com o senador Edward Kennedy; furou o cerco da segurança norte-americana e conversou com Henry Kissinger, em visita ao Brasil; prestou detalhado depoimento ao historiador Hélio Silva; escreveu ao presidente Ernesto Geisel, ao ministro do Exército Sylvio Frota, ao cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e à Anistia Internacional. Em um de seus desfiles, estampou os figurinos com tanques de guerra e anjos tristes. Quando começou a receber ameaças de morte, alertou os amigos.

Zuzu estava absolutamente sóbria na noite do acidente e uma semana antes tinha feito revisão completa em seu carro que, sem aparente motivo, desviou-se da estrada, capotando diversas vezes em um barranco. A análise das fotos e dos laudos periciais, as inúmeras contradições e omissões encontradas no inquérito e depoimentos de testemunhas oculares compuseram uma base robusta para a decisão da CEMDP reconhecendo a responsabilidade do regime militar por mais essa morte de opositor político.

De início, o relator do caso na Comissão Especial recomendou o indeferimento, que só recebeu dois votos contrários. Mas a família de Zuzu decidiu exumar o corpo e entrou com recurso, levando o relator a mergulhar na investigação dos novos dados. A exumação foi realizada por Luís Fondebrider, da Equipe Argentina de Antropologia Forense. Foram também apresentadas novas testemunhas, entre elas o advogado Carlos Machado Medeiros – filho de um ex-ministro da Justiça de Castello Branco – que trafegava pela estrada Lagoa-Barra da Tijuca e forneceu uma declaração escrita afirmando que : “(…) dois veículos abalroaram o Karmann Ghia azul de uma pessoa que, logo depois, na manhã seguinte, constatei ser Zuzu Angel”.

Com medo de represálias, contou apenas aos amigos. Três deles confirmaram integralmente essa declaração perante o relator, Luís Francisco Carvalho Filho, que não conseguiu falar pessoalmente com o advogado Carlos Medeiros, que também sofreu um acidente automobilístico causador de graves seqüelas e problemas de memória.

Outros depoimentos, recolhidos na segunda fase do processo, foram o da psiquiatra Germana Lamare – a quem Zuzu contou estar sendo ameaçada de morte – e de Marcos Pires, estudante residente na Barra da Tijuca que escutou o ruído do acidente e, ao chegar ao local, já encontrou uma dúzia de carros oficiais, a maioria da polícia, ao redor do automóvel destruído de Zuzu. As informações foram relatadas em uma carta enviada a Hildegard, filha de Zuzu e colunista do jornal O Globo. Mais tarde, em depoimento prestado a Nilmário Miranda em 12/02/1996, ele admitiu ter presenciado o acidente:

“Eu só vi um carro saindo (do túnel) e logo em seguida um outro carro que emparelha com esse carro. (…) Eu vi quando o carro que ultrapassa o carro da direita (…) abalroa este carro (…) e faz com que ele caia a uma distância que estimei na hora em cinco metros (…)”. A versão de Marcos Pires contrariava frontalmente o laudo oficial do acidente e praticamente dirimiu todas as dúvidas.

Em seu voto final pela aprovação do requerimento, Luís Francisco recuperou as inúmeras contradições do caso, que o levaram a contratar Valdir Florenzo e Ventura Raphael Martello Filho, especialistas em perícias de trânsito em São Paulo, para analisar os documentos policiais.

Em relatório minucioso eles argumentam: “Ao reexaminar o laudo original, duas circunstâncias chamaram minha atenção. Em primeiro lugar, o documento é instruído com 16 fotografias mas, aparentemente, nenhuma delas se destinava a mostrar, especificamente, as marcas da derrapagem (28 metros) na pista e as marcas da atritagem nos pneus dianteiros. Em algum lugar, na perspectiva de um observador leigo, surgiram as seguintes indagações: o meio-fio da direita seria um obstáculo capaz de provocar uma mudança de trajetória tão drástica como a que foi descrita? Levando-se em consideração que, segundo os próprios peritos, o meio-fio é de altura normal e que, segundo as fotos que instruem o laudo da época estava visivelmente coberto por vegetação rasteira, o veículo, naquela trajetória, não iria simplesmente transpor o obstáculo? (…)”.

Os peritos também descartaram a possibilidade de Zuzu ter dormido ao volante: “a dinâmica pretendida pelo laudo correspondente ao exame do local é absolutamente inverossímil. Primeiro porque um veículo jamais mudaria de direção abruptamente única e tão somente por conta do impacto de qualquer de suas rodagens contra o meio-fio, qual seria galgado facilmente, projetando-se o veículo pelo talude antes de chegar ao guarda-corpo do viaduto.

Segundo porque, sendo o meio-fio direito da auto-estrada perfeita e justamente alinhado com o guarda-corpo do viaduto, mesmo que o veículo se desviasse à esquerda, tal como o sugerido pelo laudo, desviar-se-ia do guarda-corpo, podendo, se muito, chocar o extremo direito da dianteira. Terceiro porque, mesmo que se admitisse a trajetória retilínea final, nos nove metros consignados pelo laudo, tendo-se em conta que o veículo chocou a dianteira esquerda e que não havia mais nada à direita, a não ser a rampa inclinada da superfície do talude, teríamos que aceitar que as rodas do lado direito ficariam no ar e o veículo perfeitamente em nível até que batesse no guarda-corpo, o que, evidentemente seria impossível”.

Em 1987, Virgínia Valli, publicou o livro “Eu, Zuzu Angel, procuro meu filho – a verdadeira história de um assassinato político”.

Em 2006, o diretor Sérgio Rezende levou às telas a cine-biografia da estilista Zuzu Angel, interpretada pela atriz Patrícia Pilar. A música que Chico Buarque e Miltinho compuseram, em 1977, em sua homenagem, evoca a dor de Zuzu e uma das versões existentes para o desaparecimento do corpo do filho Stuart – jogado de helicóptero no Atlântico –, mencionando também os figurinos que ela apresentou no desfile com o motivo de anjos:

Quem é essa mulher

Que canta sempre esse estribilho

Só queria embalar meu filho

Que mora na escuridão do mar

Quem é essa mulher

Que canta sempre esse lamento

Só queria lembrar o tormento

Que fez o meu filho suspirar

Quem é essa mulher

Que canta sempre o mesmo arranjo

Só queria agasalhar meu anjo

E deixar seu corpo descansar

Quem é essa mulher

Que canta como dobra um sino

Queria cantar por meu menino

Que ele já não pode mais cantar

EDSON LUIZ, SECUNDARISTA MORTO NO CALABOUÇO

Outro caso emblemático em que Rodas votou contra foi o de secundarista Edson Luiz Lima Souto, morto com um tiro no peito, no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. A sua morte ficou como grande marco histórico das mobilizações estudantis de 1968.

Sobre o caso, o livro Direito à Memória e à Verdade afirma:

Edson Luiz Lima Souto (1950 – 1968)

Número do processo: 310/96

Filiação: Maria de Belém Lima Souto

Data e local de nascimento: 22/08/1956, Belém (PA)

Organização política ou atividade: Movimento Estudantil

Data e local da morte: 28/03/1968, Rio de Janeiro (RJ)

Relator: João Grandino Rodas (1º) e Nilmário Miranda (2º)

Deferido em: 24/04/1997 por 4×3 (votos contra João Grandino Rodas, Paulo Gonet Branco e o general Osvaldo Gomes)

A morte do secundarista Edson Luiz Lima Souto ficou como grande marco histórico das mobilizações estudantis de 1968. Com 18 anos recém-completados, 1m59 de altura e armado apenas com o sonho de conquistar condições dignas na escola onde estudava, foi morto com um tiro certeiro no peito, disparado à queima-roupa por um tenente da PM, em 28/03/1968, contra estudantes que se manifestavam no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. A bala varou seu coração e alojou-se na espinha, provocando morte imediata.

Indignados, seus colegas não permitiram que o corpo fosse levado ao IML, conduzindo-o para a Assembléia Legislativa em passeata. Lá, sob cerco de polícias civis e militares, foi realizada a autópsia e aconteceu o velório. O caixão chegou ao cemitério João Batista nos braços de milhares de estudantes.

Nascido em Belém do Pará, Edson era filho de uma família muito pobre que se empenhou para enviá-lo ao Rio de Janeiro, a fim de que concluísse os estudos secundários. Matriculou-se no Instituto Cooperativo de Ensino, nas proximidades da Secretaria de Economia do Estado.

Conforme entrevistas concedidas à revista Fatos e Fotos por integrantes da Frente Unida dos Estudantes do Calabouço, o garoto não chegava a ser um líder estudantil. Falava pouco e ainda estava meio desconfiado, mas colaborava colando jornais murais e dando recados, contaram os colegas.

Estava programada mais uma passeata e Edson resolveu jantar mais cedo, naquele 28 de março, para ter tempo de preparar alguns cartazes. Segurava a bandeja na mão quando começou uma correria e foi atingido por um cassetete no ombro. Os policiais militares, que tinham invadido o local, começaram a atirar. Os estudantes armaram-se de paus e pedras para responder. Foi quando Edson caiu.

Na mesma ocasião, tiros atingiram o comerciário Telmo Matos Henrique e o estudante Benedito Frazão Dutra. Conforme a versão de algumas testemunhas, o tenente PM Alcindo Costa teria ficado enraivecido ao ser atingido por uma pedrada na cabeça.

Outros jovens presentes no local afirmaram que Edson foi atingido por se encontrar à porta quando a tropa chefiada por Alcindo entrou em formação fechada de ataque.

O local da morte foi o principal motivo que levou o relator do processo na CEMDP a propor o indeferimento do caso. No seu entendimento, o Calabouço não configurava “dependências policiais ou assemelhadas”, conforme exigido na Lei nº 9.140/95.

Houve um pedido de vistas e, no novo relatório, prevaleceu por estreita margem a argumentação de que o restaurante estava invadido pelas forças policiais e, portanto, poderia perfeitamente ser considerado um local assemelhado às dependências exigidas legalmente para configurar a responsabilidade do Estado na morte. Com base nisso, o processo foi deferido.

AUGUSTO E OTÁVIO, IPM HOMOLOGOU FARSA JURÍDICA INICIAL

O processo de filho (Augusto Soares da Cunha) e pai (Otávio Soares Ferreira da Cunha) tramitaram juntos e ambos foram aprovados por 4 a 3 pela CEMDP, com votos contrários do general Osvaldo Gomes, de João Grandino Rodas e de Paulo Gonet.

Augusto (não há foto) e Otávio Soares

Sobre eles, o livro Direito à Memória e à Verdade publica:

Augusto Soares da Cunha (1931-1964)

Número do processo: 345/96

Data e local de nascimento: 03/06/1931, Governador Valadares (MG)

Filiação: Guiomar Soares da Cunha e Otávio Soares Ferreira da Cunha

Organização política ou atividade: não definida

Data e local da morte: 01/04/1964, Governador Valadares (MG)

Relator: Nilmário Miranda

Deferido em: 10/04/1997 por 4×3

Otávio Soares Ferreira da Cunha (1898 – 1964)

Número do processo: 345/96

Filiação: Anna Soares de Almeida e Roberto Soares Ferreira

Data e local de nascimento: 1898, Minas Gerais

Organização política ou atividade: não definida

Data e local da morte: 04/04/1964, Governador Valadares (MG)

Relator: Nilmário Miranda

Deferido em: 10/04/1997 por 4×3

Em Governador Valadares, norte de Minas Gerais, na véspera do movimento que depôs João Goulart, ruralistas radicalizados haviam cercado e metralhado a residência de Francisco Raimundo da Paixão, conhecido nacionalmente como Chicão, sapateiro e presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, líder das mobilizações regionais em defesa da Reforma Agrária. Nesse cerco, houve troca de tiros e restou morto um dos atacantes, genro do coronel Altino Machado. No dia do Golpe de Estado, o clima entre fazendeiros da cidade era, portanto, de mobilização por vingança.

Nesse ambiente tenso, Augusto Soares da Cunha e seu pai Otávio Soares Ferreira da Cunha morreram também como vítimas do novo regime em seus primeiros momentos. O filho morreu no próprio dia 1º de abril de 1964 e o pai três dias depois, conseguindo sobreviver seu outro filho, Wilson, gravemente ferido no mesmo ataque.

Segundo o processo nº 35.679, do Superior Tribunal Militar, no dia 1º de abril de 1964, o tenente coronel delegado de Polícia na cidade de Governador Valadares declarou que:

“devido à falta de elementos no destacamento policial convocou Maurílio Avelino de Oliveira, Lindolfo Rodrigues Coelho e Wander Campos, todos reservistas, para prestarem serviços localizando e interceptando elementos comunistas e conduzindo-os à Delegacia em virtude do ‘Estado de Guerra’ em que se encontrava o Estado de Minas Gerais, aliás expressamente declarado pelo general Olímpio Mourão Filho, comandante, da 4ª Região Militar, a cujo mando foi incorporada a PMMG”.

A “convocação” dos três fazendeiros para prestar serviços de natureza policial pelo delegado coronel Paulo Reis teria ocorrido às 8h da manhã do dia 1º/04/1964, apenas uma hora antes da ocorrência criminosa, cabendo deixar em aberto, portanto, a possibilidade de essa convocação ter sido tão-somente um expediente formal forjado a posteriori.

Segundo o testemunho de Zalfa de Lima Soares, esposa de Wilson, e de Eunice Ferreira da Silva, empregada doméstica na residência da família, e levando em conta as declarações dos próprios assassinos, sabe-se que às 9 horas do mesmo dia, os três dirigiram-se à casa de Wilson Soares da Cunha, na rua Osvaldo Cruz, 203, naquela cidade mineira. Maurilio Avelino de Oliveira aproximou-se dos três ocupantes de um Jeep Land Rover – o pai Otávio e os filhos Augusto e Wilson – fazendo-se passar por amigo.

Depois de retirarem a chave do jipe, os fazendeiros passaram a atirar. Augusto teve morte imediata. O pai, Otávio, então com 70 anos, já alvejado, ainda conseguiu sair do veículo, engatinhou tentando refugiar-se no interior da casa, mas foi perseguido por Lindolfo, que o atingiu no rosto. Faleceu três dias depois, no hospital. Wilson Soares da Cunha, gravemente ferido, sobreviveu. Os assassinos ainda foram ao hospital procurar o outro filho de Otávio, o médico Milton Soares, que foi protegido pelos colegas médicos e enfermeiros.

O alvo principal da incursão seria o filho Wilson, que sobreviveu aos disparos, e sabidamente apoiava as atividades de Chicão em defesa da Reforma Agrária, tendo também ligações políticas com o jornalista Carlos Olavo, conhecido nacionalmente por defender as Reformas de Base e o governo João Goulart por meio do jornal tablóide O Combate, de Governador Valadares. O jornalista Carlos Olavo conseguiu escapar da cidade com a família, obteve exílio no Uruguai e só retornou ao Brasil em 1979, com a decretação da anistia.

A viúva Guiomar Soares da Cunha conseguiu do delegado Paulo Reis a abertura de Inquérito Policial. Segundo o jornal Última Hora, em 72 horas o delegado Bastos Guimarães tinha o nome dos criminosos e os denunciou ao juiz Alves Peito, que decretou a prisão preventiva dos mesmos. Os assassinos passaram à condição de foragidos. A partir daí travou-se uma batalha política envolvendo os coronéis Pedro Ferreira e Altino Machado, o major do exército Henrique Ferreira da Silva, a Associação Ruralista de Governador Valadares e outros apoiadores do novo governo, resultando na decisão do coronel Dióscoro Gonçalves do Vale, comandante do ID-4, de requisitar, com base no primeiro Ato Institucional, que o processo das mortes fosse transferido para a Justiça Militar.

O Inquérito Policial Militar (IPM) foi chefiado pelo Major Célio Falheiros. Em 19/08/1966, o Conselho Extraordinário de Justiça do Exército, na sede da Auditoria da 4ª Região Militar, homologou a farsa jurídica inicial.

O promotor Joaquim Simeão de Faria pediu ao Conselho que decidisse se, “no dia do crime ainda se considerava em Estado Revolucionário, pois apesar dos tiros terem sido desfechados pelas costas, se estivessem em estado Revolucionário haveria de ser considerada a situação em que tais tiros foram desfechados” ou se os acusados simplesmente cometeram homicídio doloso. Os advogados dos criminosos alegaram que os três acusados “estavam no estrito cumprimento do dever legal”, que a “situação era revolucionária e estavam em guerra”, que “os acusados, ao receberem voz de prisão, tentaram a fuga, o que determinara a reação dos acusados, que somente poderiam tomar atitude enérgica e viril eis que de dentro da casa onde tentaram refugiar não se sabia o que de lá viria”.

Na decisão, o conselho mandou apurar as responsabilidades das pessoas apontadas como subversivas e, por maioria de votos, 4 contra 1, absolveu os acusados Wander Campos e Lindolfo Rodrigues Coelho e, por 3 a 2, absolveu o acusado Maurílio Avelino de Oliveira. O Ministério Público recorreu ao STM, que reformou a sentença.

Em Governador Valadares, havia sido oferecida denúncia contra os assassinos em 17/05/1965. Os réus obtiveram no STF habeas-corpus recolhendo os mandados de prisão. Depois de uma série de tramitações judiciais, o STM, em 11/1/1967, condenou os três criminosos a 17 anos e meio de reclusão, por unanimidade.

O jornal Estado de Minas de 03/11/1996, com o titulo Memória de um crime em matéria assinada por Tim Filho, informa que os criminosos foram indultados por intermediação do governador Rondon Pacheco.

O relator na CEMDP concluiu que:

“há decisões jurídicas comprovando que os três criminosos desempenhavam serviço de natureza policial convocados por autoridades militares. Tanto é que foram julgados, absolvidos e condenados no âmbito da Justiça Militar. Comprovada está também, fartamente, a motivação política dos crimes. Duas pessoas foram mortas, com tiros pelas costas e uma ferida, estando todas desarmadas, após receberem ordem de prisão. Preenchidos estão todos os requisitos exigidos pela Lei nº 9.140/95”, e votou pelo deferimento do processo.

O general Oswaldo Pereira Gomes solicitou vistas ao processo e lavrou o seguinte voto vencido:

“Verificamos que o STF tomou uma decisão política por 4 a 3 votos, mandando julgar pela Justiça Militar um ato Revolucionário de civis que obviamente não poderiam ser punidos, por terem sido vitoriosos e, se fosse o caso de punir, o julgamento deveria ter-se realizado na Justiça Comum. Ao final de tudo e para reparar o absurdo, a pedido do austero governador Rondon Pacheco e sob a responsabilidade do inatacável homem público que foi o presidente Castelo Branco, os homicidas foram indultados. Essa Comissão não deve e não pode julgar com critérios políticos, sobretudo revanchistas; estaremos, se assim fizermos, cometendo atos ilegais e contrariando frontalmente a Lei nº 9.140/95, que nos obriga no art 2º a acatar o princípio da reconciliação e pacificação nacional, expresso na Lei nº 6.683,de 28/08/1979 – Lei de Anistia. Inaplica-se, pois, a Lei nº 9.140/95, no caso de pessoas baleadas em via pública, no dia 01/04/1964, às 9h no quadro de um movimento revolucionário, vez que esses indivíduos não eram agentes públicos, nem poderiam sê-lo naquele momento quando o movimento não era ainda vitorioso; no caso os agentes eram simplesmente rebeldes”.

Os processos de Augusto e Otávio Soares Ferreira da Cunha tramitaram juntos e ambos foram aprovados por 4 votos a três pela CEMDP com votos contrários do general Osvaldo Gomes, de João Grandino Rodas e de Paulo Gonet.

MARCOS ANTÔNIO, ORNALINO, ALCERI, EIRALDO, QUARESMA, JEOVÁ E ALMIR

Rodas também votou contra Marcos Antônio da Silva Lima, Ornalino Cândido da Silva, Alceri Maria Gomes da Silva, Eiraldo de Palha Freire, Edson Neves Quaresma, Jeová Assis Gomes e Almir Custódio de Lima. Só que, apesar dele, a CEMPD deferiu os processos dos sete militantes.

Seguem os relatos sobre cada um deles no livro-relatório Direito à Memória e à Verdade.

Marcos Antônio da Silva Lima (1941-1970)

Número do processo: 285/96

Filiação: Clarice da Silva Lima e Joaquim Lucas de Lima

Data e local de nascimento: 21/10/1941, João Pessoa (PB)

Organização política ou atividade: PCBR

Data e local da morte: 14/01/1970, Rio de Janeiro (RJ)

Relator: Luís Francisco Carvalho Filho

Deferido em: 09/02/1998 por 4×3 (votos contra de Paulo Gustavo Gonet Branco, João Grandino Rodas e general Oswaldo Pereira Gomes)

Paraibano de João Pessoa, afrodescendente e ex-sargento da Marinha, Marcos Antônio da Silva Lima foi um dos fundadores e, por duas vezes, vice-presidente da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, entidade que comandou importantes mobilizações reivindicatórias e políticas no âmbito da Armada, no período entre 1962 e março de 1964.

Já nas vésperas do movimento que depôs João Goulart, 1113 marinheiros, reunidos em vigília no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, tiveram a prisão decretada por insubordinação aos seus comandantes militares, que já ultimavam, àquela altura do calendário, os últimos preparativos para o Golpe de Estado.

Marcos Antônio estudou no Colégio Lins de Vasconcelos, em João Pessoa, na Escola Técnica de Comércio, em Campina Grande, e no Colégio Estadual Liceu Paraibano, também em João Pessoa. Ainda na Paraíba, foi jogador de futebol pelo time Estrela do Mar. Em 1958, iniciou sua formação de marinheiro na Escola de Aprendizes de Pernambuco. Trabalhou no navio Ary Parreiras e no Porta Aviões Minas Gerais. Como marinheiro de 1ª classe, viajou pelo mundo: Itália, Egito, França, Japão.

Nos primeiros dias de abril de 1964, logo após ouvir pelo rádio a notícia de que havia sido expulso da Marinha por força do primeiro Ato Institucional, buscou asilo na Embaixada do México, deixou o País e transferiu-se para Cuba, onde recebeu treinamento de guerrilha num primeiro grupo de ex-militares que, sob a liderança de Leonel Brizola, constituíram o MNR, sigla às vezes traduzida como Movimento Nacional Revolucionário e, outras vezes, como Movimento Nacionalista Revolucionário. Em outubro de 1964, foi condenado a nove anos de prisão e, em 1966, a mais três anos.

Retornando ao Brasil para engajar-se na resistência clandestina, instalou-se no Mato Grosso, em articulação com os militantes do MNR que tentaram organizar uma guerrilha na Serra do Caparaó entre fins de 1966 e abril de 1967. Nesse período, Marcos Antônio foi preso em São Paulo e transferido para a Penitenciária Lemos Brito, no Rio de Janeiro, ali chegando em março de 1967.

Marinheiros e outros militantes ali reunidos, em boa parte militares, recrutaram alguns presos comuns e constituíram nova organização, denominada Movimento de Ação Revolucionária – MAR, que protagonizou audaciosa fuga daquele presídio, em 26/05/1969, escondendo-se o grupo na área rural de Angra dos Reis, até romper o cerco militar após algumas semanas. Mesmo assim, o MAR durou poucos meses, sendo que Marcos Antônio e a maioria de seus integrantes se engajaram no PCBR.

Na noite do dia 14/01/1970, já moribundo, com uma bala na cabeça, foi deixado no Hospital Souza Aguiar, como desconhecido, morrendo em poucos minutos. Sua mulher recebeu por telefone a notícia da morte, com a orientação de aguardar a publicação do fato, para que não viesse a ser interrogada sobre suas próprias atividades e sobre como recebera a informação. A notícia somente foi divulgada uma semana depois, através de nota do comando da 1ª Região Militar, informando que Marcos Antônio morrera num tiroteio onde foi ferida e presa Ângela Camargo Seixas, também do PCBR, e dois agentes dos órgãos de segurança.

O laudo de necropsia é assinado pelo legista Nilo Ramos de Assis, que definiu como causa mortis“ferida transfixante do crânio com destruição parcial do encéfalo”. A irmã de Marcos Antônio, Marlene Lucas de Lima, só conseguiu retirar o corpo no dia 20 de janeiro, levando-o para sepultamento no Cemitério de Inhaúma.

A CEMDP fez diligências ao Hospital Souza Aguiar, que respondeu não possuir qualquer registro do fato, e também às autoridades militares, buscando mais detalhes sobre a operação e a identificação dos agentes feridos. Não recebeu resposta.

Depoimento de Ângela Camargo Seixas, em declaração pública enviada da Irlanda, onde vivia depois de exilar-se na Inglaterra, esclareceu amplamente os fatos. Relatou que Marcos Antônio e ela chegavam a sua casa, por volta das 23 horas do dia 13, e Marcos estava colocando a chave na porta quando os agentes de segurança, que já estavam no apartamento, começaram a atirar. O prédio estava cercado e, ao buscarem fugir pelas escadas, viu quando Marcos foi atingido. Ferida, perdeu a consciência e não sabe quanto tempo depois acordou, ainda no corredor, sendo presa.

O relator do processo junto à CEMDP considerou que as provas apresentadas apontavam para a eliminação do militante, tomando como base esse depoimento, onde ficava claro que Marcos portava, mas não empunhava arma, e que não fora feita perícia de local, prática comum no Rio de Janeiro e, neste caso, do interesse dos agentes, já que houve policiais feridos. Considerou também significativo o silêncio das autoridades militares, que não ofereceram qualquer informação ou esclarecimento às indagações da Comissão Especial.

Ornalino Cândido da Silva (1949 – 1968)

Número do processo: 004/96

Filiação: Dorcília Cândida da Silva e Sebastião Cândido da Silva

Data e local de nascimento: 1949, Pires do Rio (GO)

Organização política ou atividade: Movimento Estudantil

Data e local da morte: 01/04/1968, em Goiânia

Relator: João Grandino Rodas, com vistas de Nilmário Miranda e do general Oswaldo Pereira Gomes

Deferido em: 15/05/97, por 4×3 (contra João Grandino Rodas, Paulo Gustavo Gonet e general Oswaldo Pereira)

Ornalino Cândido da Silva foi morto aos 19 anos, numa outra manifestação estudantil em protesto contra o assassinato de Edson Luiz Lima Souto, no quarto aniversário do regime ditatorial, desta vez em Goiânia (GO), dia 01/04/1968, com um tiro na cabeça disparado por policiais que o confundiram com outro estudante. Filho de família pobre, começou a trabalhar desde cedo como lavador de carros. Era casado com Maria Divina da Silva Silvestre, com quem teve um filho.

Na noite anterior à passeata, Ornalino havia ajudado a confeccionar os cartazes de protesto no Diretório Central dos Estudantes, e convocou seus amigos para a manifestação. No dia seguinte à sua morte, o jornal O Social informou:

“Traindo a palavra empenhada ao arcebispo metropolitano e ao bispo auxiliar de Goiânia, o coronel Pitanga, secretário de Segurança Pública de Goiás e comandante da Polícia Militar, determinou que seus comandados armassem criminosa cilada contra os estudantes, que após o comício retiravam-se pacificamente, rumo à Faculdade de Direito.(…) Armados com fuzis, metralhadoras, bombas, cassetetes e revólveres, os militares cometeram toda sorte de violências, culminando com o fuzilamento de um transeunte, que, alheio ao Movimento Estudantil, postava-se nas imediações do Mercado Central, quando foi mortalmente atingido por um sargento da Polícia Militar, que, deliberadamente, sacou seu revólver, apontou para o jovem desconhecido e acionou o gatilho, julgando, talvez, tratar-se do líder estudantil Euler Vieira, dada a semelhança física entre o desconhecido e o estudante”.

Com efeito, depoimentos incorporados ao processo na CEMDP confirmam a grande semelhança física entre Ornalino e Euler Ivo Vieira, destacada liderança estudantil de Goiás naquela época, bem como registram ameaças explícitas que foram dirigidas a Euler nas vésperas, que chegou a receber pedidos para não participar da mobilização porque seria morto pelos policiais.

Autoridades do Estado sustentaram que houve tiroteio. Mas o tiro foi certeiro, na região temporal esquerda da cabeça, o que seria difícil se Ornalino estivesse correndo. O presidente do Grêmio Literário Felix de Bulhões, do Colégio Estadual de Goiânia, Allan Kardek Pimentel, disse que o estudante, mesmo precisando trabalhar para se sustentar, não deixava de participar das mobilizações, e tinha consciência do momento político. “Ele tinha uma profunda percepção do papel da juventude naquele ano difícil. Ele era o mascote do grupo”, contou Allan.

Seu enterro teve a participação de muitos estudantes. Documentos particulares do morto não foram juntados, sob a alegação de terem desaparecido. Buscas empreendidas pela família em cartórios e na Secretaria de Segurança Pública, com o intuito de obter 2ª via, resultaram infrutíferas. O único documento anexado foi o atestado de óbito.

O relator do processo na CEMDP votou pelo indeferimento, por considerar que o caso não se enquadrava na Lei nº 9.140/95, em virtude de não ter havido qualquer comprovação de participação ou acusação de participação em atividades políticas. Foi feito um pedido de vistas ao processo, para ser anexados documentos confirmando a participação política de Ornalino. O relatório foi apresentado em 24/04/1997, e houve novo pedido de vistas. Mesmo com o voto contrário do novo relatório, em 15/05/1997 a CEMDP deferiu o processo em votação apertada, de 4 a 3.

Alceri Maria Gomes da Silva (1943-1970)

Número do processo: 060/96

Data e local de nascimento: 25/05/1943, Cachoeira do Sul (RS)

Filiação: Odila Gomes da Silva e Oscar Tomaz da Silva

Organização política ou atividade: VPR

Data e local da morte: 17/05/1970, São Paulo (SP)

Relator: Paulo Gustavo Gonet Branco

Deferido em: 18/03/1996 por 5×2 (votos contra do general Oswaldo Pereira Gomes e João Grandino Rodas)

Embora militante de organização clandestina distinta, Alceri Maria Gomes da Silva foi morta junto com Antônio dos Três Reis de Oliveira (ALN, 22 anos) no dia 17/05/1970, em São Paulo. Ambos os nomes constam do Dossiê dos Mortos e Desaparecidos, Alceri na lista de mortos e Antonio como desaparecido.

Alceri, gaúcha de Porto Alegre e afrodescendente, trabalhava no escritório da fábrica Michelletto, em Canoas, onde começou a participar do movimento operário e filiou-se ao Sindicato dos Metalúrgicos. Em setembro de 1969, visitou sua família em Cachoeira do Sul para informar que estava de mudança para São Paulo, engajada na luta contra o regime militar. Após sua morte, a família viveu um verdadeiro processo de desestruturação. O pai, desgostoso, morreu menos de um ano depois de saber, por um delegado de Canoas, que a filha fora morta em São Paulo. Uma de suas irmãs, Valmira, também militante política, não suportou a culpa que passou a sentir por ter permitido que a irmã saísse de sua casa. Suicidou-se ingerindo soda cáustica.

Antônio era natural de Tiros, Minas Gerais. Fez o curso ginasial no Colégio Nilo Cairo e estudava Economia na Faculdade de Apucarana. Foi membro da União Paranaense de Estudantes e produzia programas para a rádio local, junto com José Idésio Brianesi, também militante da ALN. Foi processado por participar do 30º Congresso da UNE, em 1968, em Ibiúna (SP).

Depoimento dos presos políticos de São Paulo denunciou a morte desses dois militantes por agentes da OBAN, chefiados pelo capitão Maurício Lopes Lima. Ambos foram enterrados no Cemitério de Vila Formosa e os corpos nunca foram resgatados, apesar das tentativas feitas em 1991, a cargo da Comissão de Investigação da Vala de Perus.

As modificações na quadra do cemitério, feitas em 1976, não deixaram registros de para onde foram os corpos dali exumados. Apesar da prisão ou morte de Antônio ter sido negada pelas autoridades de segurança, no Relatório do Ministério da Aeronáutica de 1993 consta que ele morreu no dia 17/05/1970, no bairro do Tatuapé, em São Paulo, quando uma equipe dos órgãos de segurança averiguava a existência de um “aparelho”. Os documentos acerca de sua morte somente foram encontrados na pesquisa feita no IML/SP em 1991. Ali, foi localizada uma requisição de exame, assinada pelo delegado do DOPS Alcides Cintra Bueno Filho, determinando que o corpo somente fosse enterrado após a autorização do órgão. Os legistas João Pagenoto e Albeylard Queiroz Orsini assinaram a certidão de óbito, dando como causa da morte lesões traumáticas crânio-encefálicas, causadas por um tiro que penetrou no olho direito e saiu pela nuca. Apesar da confirmação da morte após tantosanos de busca, seu nome continuou a fazer parte da lista de desaparecidos políticos por decisão da Comissão de Familiares.

Alceri foi morta com quatro tiros, de acordo com o laudo necroscópico assinado pelos legistas João Pagenotto e Paulo Augusto Queiroz Rocha, que descrevem ferimentos no braço, no peito e dois que penetraram pelas costas, na coluna. Ao examinar o processo de Alceri, considerou o relator na CEMDP que as circunstâncias de sua morte foram exatamente as mesmas de Antônio, invocando o reconhecimento, por analogia, de que se o falecimento de Antonio atraiu o benefício previsto na lei, a Comissão Especial tivesse como satisfeitos, também em relação a Alceri, os pressupostos para que sua morte fosse enquadrada na Lei nº 9.140/95.

Eiraldo de Palha Freire (1946-1970)

Número do processo: 329/96

Filiação: Walkyria Sylvete de Palha Freire e Almerindo de Campos Freire

Data e local de nascimento: 15/05/1946, Belém (PA)

Organização política ou atividade: ALN

Data e local da morte: 04/07/1970, Rio de Janeiro (RJ)

Relator: Suzana Keniger Lisbôa

Deferido em: 05/05/1998 por 5×2 (votos contra de João Grandino Rodas e Oswaldo Pereira Gomes)

Eiraldo de Palha Freire foi baleado e preso no dia 01/07/1970, no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, por militares da Aeronáutica, quando tentava seqüestrar um avião de passageiros da empresa Cruzeiro do Sul para libertar presos políticos. Também foram presos na mesma operação seu irmão Fernando Palha Freire e o casal Colombo Vieira de Souza Junior e Jessie Jane, militantes da ALN que teriam decidido realizar o seqüestro para libertar o pai de Jessie, preso político em São Paulo como militante da mesma organização. Eiraldo morreu em 04/07/70, no Hospital da Aeronáutica, sendo sepultado pela família no dia seguinte, no Cemitério São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro.

Os três presos sobreviventes da tentativa de seqüestro do avião foram formalmente acusados pela morte de Eiraldo, e Colombo indiciado por tê-lo atingido. No decorrer do julgamento, a Promotoria concordou com a versão da defesa de que Eiraldo havia cometido suicídio.

No processo junto à CEMDP, o relatório salienta as diferentes versões contidas nos jornais e documentos oficiais. Numa delas, Eiraldo foi morto por Colombo; em outra, suicidou-se, tendo morte imediata ainda dentro do avião; numa terceira, foi socorrido, morrendo posteriormente.

Na verdade, ficou provado que ele chegou a ser acareado com Jessie Jane no DOI-CODI, na rua Barão de Mesquita, onde estava sendo interrogado. O exame de corpo de delito, realizado um dia antes da morte, no Hospital da Aeronáutica, no Galeão, quando Eiraldo já se encontrava em coma, foi firmado por Fausto José dos Santos Soares e Paulo Erital Jardim, que simplesmente registraram estar baleado. A necropsia, firmada por José Alves de Assunção Menezes e Ivan Nogueira Bastos, descreve algumas escoriações no seu corpo, como na fronte, nariz, incisões cirúrgicas nas regiões temporais e traqueostomia.

O fato inquestionável é que foi visto por Jessie Jane no DOI-CODI e somente foi levado a exame de corpo de delito dois dias depois da prisão. Além disso, tinha, após o exame de corpo de delito, outros ferimentos não descritos no laudo, mas referidos na necropsia.

Em decisão tomada na reunião de 05/05/1998, a CEMDP aprovou o requerimento, por maioria de votos, tendo prevalecido o entendimento de que a soma de contradições entre documentos oficiais, o desencontro entre versões, a prova taxativa de que Eiraldo foi interrogado no DOI-CODI e vários outros indícios convergiam no sentido de recomendar o deferimento.

Edson Neves Quaresma (1939-1970)

Número do processo: 222/96

Filiação: Josefa Miranda Neves e Raimundo Agostinho Quaresma

Data e local de nascimento: 11/12/1939, Apodi (RN)

Organização política ou atividade: VPR

Data e local da morte: 05/12/1970, São Paulo (SP)

Relator: Suzana Keniger Lisbôa

Deferido em: 30/01/1997 por 4×3 (votos contra do general Oswaldo Pereira Gomes, Paulo Gustavo Gonet Branco e João Grandino Rodas)

No dia 05/12/1970, Edson Neves Quaresma e Yoshitane Fujimori (26 anos), militantes da VPR, trafegavam de carro pela Praça Santa Rita de Cássia, na capital paulista, quando foram interceptados por uma patrulha do DOI-CODI/SP. Os fatos foram relatados à CEMDP por Ivan Akselrud de Seixas, que por sua vez colheu depoimento, na época, de um motorista de táxi que presenciara o ocorrido.

O taxista descreveu, detalhadamente, que Fujimori caiu no meio da praça e Quaresma numa rua de acesso, sendo carregado por dois policiais e agredido na Praça até a morte. Fujimori chegou com vida ao DOI-CODI/SP, fato declarado a Ivan pelos policiais Dirceu Gravina e “Oberdan” durante seu interrogatório naquela unidade de repressão política, em 1971.

Nascido em Itaú, que naquela época pertencia ao município de Apodi (RN), Quaresma era afrodescendente e estudou até a quinta série do curso primário em Natal. Em 1958, ingressou na Escola de Aprendizes de Marinheiros, em Recife (PE), da qual saiu como grumete em 1959. Logo em seguida, foi deslocado para o Rio de Janeiro, tendo servido no cruzador Tamandaré. Foi tesoureiro da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil. Após a deposição de João Goulart, ficou preso na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, durante um ano e dois meses. Em 31/12/1964 foi expulso da Armada. A partir de 1965, passou a atuar na clandestinidade, vinculado ao MNR. Viajou para Cuba e lá recebeu treinamento de guerrilha. Teria regressado ao Brasil em julho de 1970, já integrado à VPR.

Quaresma mantinha estreita ligação com o agente infiltrado cabo Anselmo. Depoimento prestado pelo cabo ao DOPS, localizado nos arquivos secretos desse departamento policial, explica que Quaresma tinha retornado de Cuba ao Brasil com a missão de preparar a chegada de próprio Anselmo. No voto da relatora do processo junto à CEMDP existem referências à possibilidade de que a eliminação sumária desses dois militantes, de elevada importância na estrutura da VPR, tenha nexo com a necessidade de manter sob segredo a atuação infiltrada do cabo Anselmo.

Natural de Mirandópolis, interior paulista, Fujimori era técnico em eletrônica e, nas atividades da VPR, os órgãos de segurança já sabiam de sua estreita ligação com Carlos Lamarca, que nessa altura do calendário era considerado o inimigo número 1 do regime militar. Fujimori foi um dos militantes que acompanharam Lamarca no rompimento do cerco imposto a uma área de treinamento da VPR no Vale do Ribeira, em São Paulo, no primeiro semestre daquele ano e um dos acusados de executar a coronhadas o tenente da PM paulista Alberto Mendes Junior.

Ambos foram sepultados como indigentes no Cemitério de Vila Formosa, Quaresma, sob nome falso. Os laudos de necropsia foram assinados por Harry Shibata e Armando Canger Rodrigues. A solicitação de exame necroscópico de Quaresma foi feita pelo delegado do DOPS Alcides Cintra Bueno Filho e registra que o corpo deveria ser fotografado de frente e perfil. Mas não foram encontradas fotos de seu corpo, que deu entrada no IML quatro horas depois do suposto horário da morte. O laudo registra que uma das cinco balas encontradas em seu corpo atingiu as costas e as outras quatro foram disparadas na cabeça, uma na região auricular direita. A relatora argumentou, em seu parecer, que era praticamente impossível uma pessoa morrer em tiroteio com quatro tiros na cabeça.

A CEMDP encaminhou os documentos relativos à morte de Fujimori para laudo do perito Celso Nenevê, que produziu a prova mais importante utilizada pela relatora. Analisando a trajetória dos tiros, o perito concluiu que três dos quatro projéteis que penetraram na face direita foram dados com o corpo de Fujimori em posição inferior, ou seja, caído ou deitado. Por maioria de votos, a CEMDP considerou que Edson e Yoshitane foram executados sob a guarda do Estado. Os processos foram relatados em conjunto, mas as discussões foram feitas em separado, resultando em votações diferenciadas. Votou contra o processo de Fujimori o general Oswaldo Pereira Gomes.

Jeová Assis Gomes (1948-1972)

Número do processo: 171/96

Filiação: Maria José Assis Gomes e Luiz Gomes Filho

Data e local de nascimento: 24/08/1943, Araxá (MG)

Organização política: MOLIPO

Data e local da morte: 09/01/972, Guaraí (GO, hoje TO)

Relator: Nilmário Miranda

Deferido em: 10/12/1996 por 4×3 (votos contra do general Oswaldo Pereira Gomes, Paulo Gustavo Gonet Branco e João Grandino Rodas)

Jeová Assis Gomes foi o terceiro banido a ser morto depois de retornar clandestinamente ao Brasil, engajado na resistência armada ao regime militar. Já tinham encontrado o mesmo destino, em 1971, Aderval Alves Coqueiro e Carlos Eduardo Pires Fleury. Começa a se caracterizar, dessa forma, a existência de uma possível sentença extra-judicial de condenação à morte dos banidos que retornassem. O jornalista Elio Gaspari escreveria muitos anos depois, emA Ditadura Escancarada: “A sentença de morte contra os banidos autodocumenta-se. Entre 1971 e 1973 foram capturados dez. Nenhum sobreviveu”.

Nascido em Araxá (MG), Jeová era uma liderança entre os estudantes de Física na USP, destacando-se também nas mobilizações dos moradores no CRUSP – conjunto residencial da Universidade. Em 1966, liderou a “Greve das Panelas”, que se realizou no CRUSP e precedeu a efervescência de 1968. Com a decretação do AI-5, em dezembro desse ano, o CRUSP, onde moravam 1.500 universitários, foi cercado, os prédios desocupados e muitos estudantes foram presos. Jeová, que na época era um dos dirigentes da DISP – Dissidência Estudantil do PCB/SP, foi expulso do CRUSP e da USP, já procurado pelos órgãos de segurança. Passou a atuar em Brasília e Goiás, transferindo-se com muitos outros militantes daquele agrupamento dissidente para a ALN, em 1969.

Preso em 12/11/1969 em Goiás, pela militância na ALN, foi transferido para a OBAN, onde sofreu torturas que lhe causaram fraturas nas duas pernas. Permaneceu preso até junho de 1970, quando foi banido para a Argélia em troca do embaixador alemão Von Holeben, seqüestrado numa operação conjunta entre VPR e ALN. Da Argélia viajou para Cuba, recebeu treinamento militar naquele país e retornou clandestinamente ao Brasil em 1971, como militante do MOLIPO, com a tarefa de construir uma base de guerrilha na área rural. Em 09/01/1972, Jeová foi localizado e morto em um campo de futebol em Guaraí (Goiás na época, hoje Tocantins). Documentos dos órgãos de segurança o apontavam como coordenador nacional do Molipo, ao lado de Antonio Benetazzo e Carlos Eduardo Pires Fleury.

A família recebeu a notícia da morte de Jeová por meio da imprensa, na noite do dia 16/01/1972. Seu irmão foi até Guaraí, onde obteve informações de que Jeová fora morto com um tiro pelas costas e estava enterrado num cerrado na periferia da cidade. Não conseguiu o laudo, tampouco certidão de óbito e a remoção dos restos mortais. No primeiro comunicado oficial dos órgãos de segurança sobre o caso, distribuído à imprensa, as autoridades do regime militar afirmaram: “no último domingo, foi morto a tiros, na cidade de Guaraí, norte de Goiás, o terrorista Jeová Assis Gomes, ao tentar resistir à voz de prisão que lhe fora dada por agentes policiais”.

Uma segunda versão, divulgada em Brasília três dias depois, relata que:

“A equipe de segurança abordou o referido elemento, convidando-o discretamente a acompanhá-la para fora do pequeno estádio. Aquiesceu, deslocando- se cerca de 15 metros, quando se jogou no chão, puxando do bolso uma granada, na tentativa de acioná-la, no que foi impedido a tiros pelos agentes, no interesse de evitar um morticínio de largas proporções de populares inocentes”.

Nilmário Miranda, relator do processo na CEMDP, apresentou o relatório do então delegado de Guaraí, 2º Sargento da PM, José do Bonfim Pinto que informava:

“aos nove dias de janeiro de 1972, por volta das 15h30min, desembarcou nesta cidade, procedente do sul, um indivíduo que, mais tarde foi identificado como Jeová Assis Gomes, terrorista de destaque da ALN. Tomou quarto num hotel local, onde deixou uma pasta que trazia ao desembarcar. Mais ou menos às 16h, rumou para o acampamento da Rodobrás, em cuja quadra de esportes era disputada uma partida de futebol. Ali se misturou com o povo. Por volta das 16h30min foi abordado por uns senhores, que mais tarde se identificaram como agentes do DOI-CODI/11º RM, os quais, procurando afastá-lo do meio do povo, deram-lhe voz de prisão, chamando-o pelo nome. Vendo- se identificado, empurrou dois dos agentes e tentou empreender fuga, forçando um dos agentes a alvejá-lo. Dado a posição que recebeu o projétil (tórax), teve morte instantânea”.

O delegado conclui descrevendo o que fora encontrado na pasta: mapas de Goiás, bússola, roupas, documentos, um revólver 38, munição, e uma bomba de fabricação caseira. Posteriormente, em 15 de setembro, o mesmo delegado encaminhou correspondência ao Secretário de Segurança de Goiás, dizendo que, estando impossibilitado de abrir inquérito para investigar a morte de Jeová, remetia todo o material existente em sua Delegacia.

No voto na CEMDP, Nilmário Miranda construiu uma detalhada comparação entre o relatório do delegado local e a versão divulgada pelos órgãos de segurança, realçando cada uma das inúmeras contradições entre ambos. Ressaltou que os agentes que ali desembarcados, procedentes de Brasília, sabiam que Jeová estaria no campo de futebol; e que a versão divulgada, três dias depois fora preparada para justificar uma execução.

Considerando a evidente política de extermínio dos banidos que voltassem ao país, Nilmário concluiu:

“os agentes repressivos foram a Guaraí para eliminá-lo; caso contrário, teriam-no algemado no ato da prisão. Se era considerado ‘perigoso terrorista’, provável chefe da futura guerrilha, não iriam convidá-lo ‘discretamente’, e sim imobilizá-lo imediatamente para prendê-lo, algemá-lo e revistá-lo”.

Na sessão em que a CEMDP julgou o caso, após discussão ampla, ocorreu empate na votação do processo referente a Jeová. O presidente Miguel Reale Jr. desempatou a votação: “ninguém iria levar uma granada para um campo de futebol e deixar a arma no hotel. Estava desarmado e a possibilidade de domínio era grande. Voto com o relator”.

Com toda a reserva que deve recobrir a credibilidade de um texto como o “livro secreto do Exército”, divulgado em abril de 2007 pelo jornalista Lucas Figueiredo, cabe registrar neste livro-relatório um pequeno trecho de sua página 694: “Boanerges de Souza Massa continuou entregando tudo. Abriu um ‘ponto’ que teria com Jeová Assis Gomes, em Guaraí, no Estado de Goiás, no dia 10 de janeiro de 1972. A equipe policial chegou à localidade no dia 9 de janeiro e, com a ajuda de Boanerges, Jeová foi localizado nas arquibancadas de um campo de futebol, assistindo a uma partida. Ao receber voz de prisão, Jeová retirou uma granada de uma sacola e tentou sacar o grampo de segurança para lançá-la. Pressentindo a tragédia que a explosão causaria no estádio, a equipe policial atirou matando Jeová”

Em 2 de junho 2005 o então presidente da CEMDP, Augustino Veit, juntamente com a assessora Iara Xavier foram à cidade de Guaraí com a finalidade de buscar informações sobre as circunstâncias da morte de Jeová e localizar sua sepultura para posterior exumação e identificação. As informações obtidas confirmaram que Jeová foi abordado no campo de futebol da Rodobrás. Ficou confirmado que as autoridades policiais vindas de Brasília poderiam ter efetuado a prisão de Jeová, mas preferiram fuzilá-lo perante centenas de pessoas que assistiam a um jogo de futebol. A versão foi confirmada pelo soldado militar Sebastião de Abreu, que realizou o enterro. A partir de diversos depoimentos, conseguiu-se localizar a possível sepultura.

Em 12 de outubro de 2005, a polícia técnica de Brasília fez escavações para exumar os restos mortais de Jeová. As escavações foram acompanhadas pelo irmão de Jeová, Luís Antonio Assis Gomes que foi à cidade de Guaraí uma semana depois do assassinato, mas nem o soldado Sebastião Abreu e tampouco o irmão souberam precisar o local da sepultura. Ficou confirmado, no entanto, que Jeová foi assassinado em 09/01/1972, por volta das 16h, numa demonstração de força dos agentes federais. É certo também que Jeová foi enterrado no cemitério da cidade.

Almir Custódio de Lima (1950-1973)

Número do processo: 123/96

Filiação: Maria de Lourdes Guedes de Lima e João Custódio de Lima

Data e local de nascimento: 24/05/1950, Recife (PE)

Organização política ou atividade: PCBR

Data e local da morte: 27/10/1973, Rio de Janeiro (RJ)

Relator: general Oswaldo Pereira Gomes

Deferido em: 18/03/1996 por 5×2 (votos contra do general Oswaldo Pereira Gomes e de João Grandino Rodas)

Almir foi morto pelos órgãos de segurança do regime militar em 27/10/1973, no Rio de Janeiro, com outros três militantes do PCBR: Ramires Maranhão do Valle (23 anos), Ranúsia Alves Rodrigues (28 anos) e Vitorino Alves Moitinho (24 anos).

A cena para legalização das execuções foi montada na Praça Sentinela, em Jacarepaguá. Ramires, Almir e Vitorino aparecem totalmente carbonizados dentro de um Volkswagen, enquanto o corpo de Ranúsia jaz baleado, embora não queimado. Foram esses os últimos membros do PCBR a serem mortos no longo ciclo do regime militar, encerrando a série iniciada com o assassinato sob torturas de Mário Alves, principal dirigente e fundador do partido, em janeiro de 1970, no DOI-CODI/RJ. Em outubro de 1973, quando dessas últimas quatro mortes, o PCBR já estava reduzido a um pequeno círculo de militantes.

Os documentos oficiais dos arquivos dos Ministérios do Exército, Marinha e Aeronáutica mostram versões desencontradas sobre a morte dos quatro militantes. Alguns fatos só começaram a ser esclarecidos com a abertura dos arquivos secretos do DOPS, no Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco.

No dia 29/10/1973, a imprensa carioca apenas noticiou a morte de dois casais em Jacarepaguá. O Jornal do Brasil estampou “Polícia especula, mas nada sabe ainda sobre os casais executados em Jacarepaguá”, enquanto O Globo noticiou: “Metralhados dois casais em Jacarepaguá”.

Nenhum dos jornais citou nomes dos mortos. O mesmo ocorreu na matéria da revista Veja, de 07/11/1973, “Quem Matou Quem?”. Somente em 17/11/1973, tanto em O Globo, quanto noJornal do Brasil, respectivamente, sob os títulos “Terroristas Morrem em Tiroteio com as Forças de Segurança” e “Terroristas São Mortos em Tiroteio”, se lê: “em encontro com forças de segurança, vieram a falecer, após travarem cerrado tiroteio, quatro terroristas, dois dos quais identificados como Ranúsia Alves Rodrigues, ‘Florinda’, e Almir Custódio de Lima, ‘Otávio’, pertencentes à organização clandestina subversiva intitulada PCBR”.

Os nomes de Vitorino e Ramirez não foram citados nas matérias e, como conseqüência, esses dois militantes passaram a figurar nas relações de desaparecidos políticos, integrando a lista anexa à Lei nº 9.140/95.

No livro Dos Filhos Deste Solo, Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio assim registraram o episódio:

“Chovia na noite de 27 de outubro de 1973, um sábado. Alguns poucos casais escondiam-se da chuva junto do muro do Colégio de Jacarepaguá, no Rio. Por volta das 22h um homem desceu de um Opala e avisou: ‘Afastem-se porque a barra vai pesar’. O repórter de Veja (7/11/73) localizou alguém que testemunhou o significado desse aviso: ‘Não ouvimos um gemido, só os tiros, o estrondo e a correria dos carros’. (…) Vindos de todas as ruas que levam à Praça, oito ou nove carros foram chegando, cercando um fusca vermelho (AA 6960) e despejando tiros. Depois jogaram uma bomba dentro do carro. No final, havia uma mulher morta com quatro tiros no rosto e peito e três homens carbonizados”.

Todos os corpos deram entrada no IML como desconhecidos e foram necropsiados por Hélder Machado Paupério e Roberto Blanco dos Santos, que confirmaram a versão oficial. A partir de 1991, com os documentos encontrados em arquivos do DOPS foi comprovada a morte dos dois desaparecidos. Documento de informação do Ministério da Aeronáutica de 22/11/1973, de nº 575, encontrado no arquivo do antigo DOPS/SP, afirma:

“dia 27/10/1973, em tiroteio com elementos dos órgãos de segurança da Guanabara, foram mortos os seguintes militantes do PCBR: Ranúsia Alves Rodrigues, Ramires Maranhão do Valle, Almir Custódio de Lima e Vitorino Alves Moitinho”.

Apesar de os quatro militantes estarem perfeitamente identificados, os órgãos de segurança omitiram as mortes de Ramirez e Vitorino e ainda enterraram todos sem identificação, como indigentes, no cemitério Ricardo deAlbuquerque, Rio de Janeiro.

Em 02/04/1979, seus restos mortais foram transferidos para o ossuário geral e, por volta de 1980 ou 1981, para uma vala clandestina com cerca de duas mil outras ossadas.

No arquivo do DOPS/RJ foi encontrado um documento do I Exército, de 29/10/1973, que narra o cerco aos quatro militantes desde o dia 08/10/1973, culminando com a prisão de Ranúsia na manhã do dia 27/10/1973. O documento inclui interrogatório e declarações de Ranúsia no DOI-CODI/RJ.

O relatório fala de farta documentação encontrada com ela e menciona a morte dos quatro militantes, dando-lhes os nomes completos. A versão divulgada pelo DOPS é que os militantes do PCBR perceberam a presença de “elementos suspeitos” e tentaram fugir, acionando suas armas. Como o carro teria começado a pegar fogo, não foi possível retirar as pessoas que estavam dentro. Laudo e fotos da perícia no local mostram Ranúsia morta perto do carro, tendo ao fundo um Volkswagen incendiado, onde estavam carbonizados Ramires, Vitorino e Almir.

A CEMDP analisou os processos de Almir e Ranúsia, visto que os outros dois casos já foram reconhecidos automaticamente pela inclusão no Anexo da Lei nº 9.140/95. Em seu parecer, o relator general Osvaldo Pereira Gomes considerou que a versão oficial era verdadeira, apesar de alguns pontos considerados obscuros. Propôs aprovação somente do processo de Ranúsia, que nos documentos resgatados dos arquivos policiais aparecia como presa, e o indeferimento no caso de Almir.

No entanto, a maioria da CEMDP aprovou os dois processos, considerando que todos foram mortos nas mesmas circunstâncias e que a versão oficial não se sustentava após exame das provas anexadas.

Em tempo 1: Os votos referem-se apenas aos 11 pedidos que foram deferidos pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, apesar do voto contrário de João Grandino Rodas.

Sobre esses 11 militantes mortos ou desaparecidos, transcrevi exatamente o que está publicado no livroDireito à Memória e à Verdade. Para acessar o relatório na íntegra, basta clicar aqui.

Em tempo 2: Exceto as fotos de Zuzu Angel (Instituto Zuzu Angel) e de Stuart Angel, as demais são as publicadas no livro Direito à Memória e à Verdade.

Resgatar a história desses 11 militantes políticos é importante para que essa tragédia não se repita nunca mais.

Eu sei... Eu sei...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Entrevista com Aldous Huxley

A Ariely me indicou uma reportagem em três capítulos com o pensador "que teve uma visão do inferno" do futuro, gravada em 1958. Achei a reportagem fantástica e pensei que ela cairia muito bem por aqui.








O tempo gasto assistindo essas postagens é qualquer coisa, menos desperdício.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Belo Monte: uma ação urgente!

A indispensável discussão sobre Belo Monte em dois vídeos. Um mostra que entre os atores ainda há aqueles que não se corromperam, outro, que não existe burocracia não corrompida:



É a Gota D' Água +10 from Movimento Gota d' Agua on Vimeo.



e



E, para que não fiquemos somente na discussão:


e

Rompe a lona, beija as nuvens, tomba de nariz


Há um tempo já distante, algumas pessoas saiam dos campos em busca de melhores condições nas cidades (curiosamente isso ainda acontece com muita frequência). Uma vez nas colmeias de pedras, cimento e madeira construídas por macacos, algumas destas pessoas não conseguiam uma forma de trabalho que lhe desse condições de sobreviver. E sem dinheiro, consequentemente ficavam sem uma morada na colmeia. Nas ruas dormiam, comiam, bebiam, tentavam sobreviver de alguma forma.

Não havia papelão, não havia jornal... A cama na calçada era de palha. E após uma noite revirada entre despertar e dormir novamente, se encolher e se cobrir do vento e do frio das ruas, eis que estas pessoas estavam, no dia seguinte, com palha em suas roupas, seus cabelos. Esqueçam Patati e Patata, esqueçam Bozo e Tiririca... Estas pessoas cobertas de palha deram origem ao que conhecemos hoje como palhaços, ou pagliacci (plural de pagliaccio = "homem da palha" em italiano).

Mendigos. Uma vez nas ruas, sua sobrevivência era principalmente à partir de esmolas e da caridade de quem por ali passava. Esqueçam essas roupas coloridas, flor que solta água na lapela, cabelos verdes, amarelos ou azuis. Sabem o nariz vermelho do palhaço, aquele nariz grande e arredondado? É de tanto beber, beber e cair, sem equilíbrio, de cara no chão. Acrescente também as doenças de um morador de rua, em regiões onde o frio é mais intenso que aqui.

Bêbados e doentes. Vida nada alegre, pouco engraçada pra quem vive... Uma lágrima nos rostos pintados de hoje representa essa tristeza. Pra quem passa, vê alguém cambaleando, um desengonçado que toma uma rasteira do chão firme. E assim, alguns rostos tristes amparados por corpos dançantes passam a ver que sobreviver significa pegar a própria vida e fazer dela um estado de graça pra quem passa.

Olá palhaço, bem vindo ao mundo! E, ao mesmo tempo, bem vindo do mundo que você já cansou de encarar ao cair no chão...



Muitos se esquecem que fazer graça não é apenas ser engraçado, mas também, e principalmente, ser gracioso. Hoje tanto o termo "palhaço" quanto a expressão "fazer graça" são tidos como pejorativos, mas será mesmo? Gracioso é, antes de mais nada, aquele que toca, que mostra algo de uma forma muito diferente do que se apresenta.
Certa vez, um cara me falou que encontrou alguém que fazia de tudo para guardar o choro, seja na frente de outras pessoas, quanto sozinho. E um dia ele disse pra essa pessoa: "Sabe, você tem duas opções.. chorar ou não. Sabia que chorar faz bem ao organismo? Literalmente, juro! Dilata os vasos, diminuindo a frequencia cardíaca mas ao mesmo tempo mantendo a oxigenação do cérebro. Mas ó, chorar dá rugas. Então, o que prefere? Ter um rosto liso mas um organismo estressado, ou um corpo e mente saudáveis mas no rosto as marcas da experiência da vida? E nesse momento, essa pessoa riu, riu como criança... e depois caiu no choro... Hoje, vendo tudo isso que escrevo aqui, percebo que, nesse pequeno momento, houve um vislumbre de palhaço... Debilitado, ainda em busca de um caminho (assim como hoje), mas um palhaço...

"Quem é o palhaço? Palhaço é aquele sujeito que recusa que as coisas sejam apenas como são. Palhaço é aquele sujeito que nos mostra que nossas relações com as coisas são simplificadas, e não simples. Palhaço é o sujeito que olha o mundo com os olhos de uma criança, a sabedoria de um velho e o coração de um apaixonado, o sujeito que ama a liberdade porque só ela pode amá-lo como ele é. O palhaço é peito de aço, coração de manteiga, sua leveza de pluma nos pesa como chumbo, o sujeito que nos mostra que ser humano é uma prepotência, e que só o palhaço é potência. Palhaço é aquilo que poderíamos ser se não fossemos tão... expectadores."


Essa é uma pura demonstração nítida do lado gracioso de um palhaço. Quando ele joga a sacola de plástico pro ar, todos riem, mas ele mantém a cara de criança deslumbrada ao ver algo belo. E a cena se repete. Começa então um malabarismo, de sacolas plásticas mesmo. Embora leves, pro palhaço o esforço (visto na sua desenvoltura) é que elas não devem NUNCA cair no chão, pelo contrário, devem sempre ir pro alto.. Todas, sem exceção, inclusive a que ele pega do chão, sem deixar as outras caírem. E ao final, somente ao final, você entende o porquê daquela cara de bobo ao ver a sacolinha no ar... Enquanto pra quem via era apenas uma sacola, ele já via um pássaro, um pássaro que deveria levantar um voo que, de tão belo, faz ele ficar bobo e deslumbrado...

Minhas companheiras sacolas plásticas, na maioria das vezes querem colocar compras ou lixo dentro de nós. Mas sabemos muito bem que tipo de sacolas podemos ser...
Palhaços... e Pássaros... feitos a partir das mesmas de sacolas plásticas... Pintar o nariz de vermelho, e voar...

Dependência, comodismo e fuga... Veja só então, e não é que o lado triste do palhaço também é o de todos nós? O que nos falta então para virarmos palhaços por completo?

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Envenenamento Compulsório e você, tudo a ver

A Jazz me passou umas indicações de sítios que nos permitem viver de maneira mais saudável.

Chega do lento envenenamento cotidiano - agrotóxico, televisão, rede-social, consumo - precisamos caminhar para o despertar. Viver. Cinquenta anos como se fossem Cem. Cem como se fossem Mil.

Eis a indicação:





Ver o tempo passar me assusta, envelhecer dia após dia em um galpão de fábrica (durante o curto, mas, revelador período de um ano) me fez sentir o quão importante é a liberdade e enxergar a infinidade de medidas de cerceamento impostas pela sociedade.

Como eu já disse em um comentário de um post, não podemos nos ater a montar as bordas do quebra cabeça e deixar o resto pra depois, precisamos, sim, focar nas bordas, mas, não devemos deixar de lado as outras peças que evidentemente formarão alguma outra figura. Temos que lutar nos lutas individuais, mas, temos também, que ajudar nas lutas individuais e coletivas de nossos amigos, irmãos e companheiros. Temos um número reduzido de braços, solidariedade é fundamental.

Compartilhe conosco suas ações cotidianas.

sábado, 12 de novembro de 2011

Debate - Polícia no Campus da USP

O seguinte debate no programa "Entre Aspas" da Globo News (indicado via e-mail por Mariana) é muito bom, tanto para aqueles que já estabeleceram uma opinião sobre o assunto quanto para aqueles que ainda querem saber mais sobre o assunto.

Exército Brasileiro, o grande irmão

As práticas militares de infiltração e espionagem não são novidade. O governo do PSDB, no Estado de São Paulo, recorrentemente, utiliza de policiais infiltrados em manifestações, de táticas para manipular a opinião pública, etc.
No último dia 8, a Carta Capital publicou uma matéria sobre a liberação de um manual militar secreto sobre as práticas do exército brasileiro. Não há nenhuma novidade nele: o exército infiltra-se em organizações civis e movimentos sociais com a finalidade de espioná-los. Entre os inimigos, constam todos os não militares, até mesmo aqueles nem tão comprometidos com mudanças sociais significativas, como as ONGs.
Vale a pena ler a matéria:

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Acorde aquilo que está no seu peito, dormindo...



Até Quando?
Gabriel, o pensador

Não adianta olhar pro céu
Com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer
E muita greve, você pode, você deve, pode crer

Não adianta olhar pro chão
Virar a cara pra não ver
Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus
Sofreu não quer dizer que você tenha que sofrer!

Até quando você vai ficar usando rédea?!
Rindo da própria tragédia
Até quando você vai ficar usando rédea?!
Pobre, rico ou classe média

Até quando você vai levar cascudo mudo?
Muda, muda essa postura
Até quando você vai ficando mudo?
muda que o medo é um modo de fazer censura

Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!!)
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!!)
Até quando vai ser saco de pancada?

Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente
O seu filho sem escola, seu velho tá sem dente
Cê tenta ser contente e não vê que é revoltante
Você tá sem emprego e a sua filha tá gestante
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo
Você que é inocente foi preso em flagrante!
É tudo flagrante! É tudo flagrante!!

A polícia
Matou o estudante
Falou que era bandido
Chamou de traficante!
A justiça
Prendeu o pé-rapado
Soltou o deputado
E absolveu os PMs de Vigário!

A polícia só existe pra manter você na lei
Lei do silêncio, lei do mais fraco
Ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco
A programação existe pra manter você na frente
Na frente da TV, que é pra te entreter
Que é pra você não ver que o programado é você!

Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar
O cara me pede o diploma, não tenho diploma, não pude estudar
E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar
Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá
Consigo um emprego, começa o emprego, me mato de tanto ralar
Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar
Não peço arrego, mas onde que eu chego se eu fico no mesmo lugar?
Brinquedo que o filho me pede, não tenho dinheiro pra dar!

Escola! Esmola!
Favela, cadeia!
Sem terra, enterra!
Sem renda, se renda! Não! Não!!

Muda que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente!
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro!
Até quando você vai ficar levando porrada,
até quando vai ficar sem fazer nada

Composição: Gabriel o Pensador; Itaal Shur; Tiago Mocotó

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

QUALQUER SEMELHANÇA COM A REALIDADE NÃO É MERA COINCIDÊNCIA




"O global da coisa tá tudo bem [mas hein?], mas você vai nos bairros marginais... nesses locais onde as pessoas menos favorecidas moram... você vê que HÁ sofrimento! E EU NÃO GOSTO de conviver com sofrimento do próximo... MUITO MENOS DO MEU"

"Óia! A elite precisa da não-elite e vice-versa"

"Nós somos um país emergente, um país com uma população... ahn... [rolou uma dúvida] muito avançada de um lado (!), uma elite e que é uma minoria em oposição à população que sofre muito [cara de nojinho], muito judiada"

" (sobre a ocupação na USP) Eu acho que nós entramos num problema grave de anarquismo, que não existe NEM SEQUER socialismo [mas hein? ²]"... " porque eles são anarquistas, eles são um movimento de depredar... " - Socialite, a historiadora (!)

... dentre outras pérolas


FILME: "QUANTO VALE OU É POR QUILO" de Sérgio Bianchi


"HOJE, A CLASSE MÉDIA TAMBÉM QUER TER O LUXO DE TER PRINCÍPIOS"

Fidelidade à minha fome, sempre mordomo e cada vez mais cão!


Sem a identificação? Será que sabem que tão fazendo merda? Maaas será??



Não dá, simplesmente não dá. Seja você a favor da ocupação dos estudantes na USP, contra ela, a favor da maconha, ou contra. Simplesmente nada justifica a ação da polícia. Mais de 400 policiais, cavalaria, 2 HELICOPTEROS!!! Ah, sim, sei que haviam 7 molotovs lá, mas ainda assim vcs acham a balança se equilibra assim??? E como se não bastasse, cercaram não apenas o prédio ocupado, no caso o da Reitoria, mas também outros prédios que não tinham nenhuma relação com a ocupação, como o CRUSP. O CRUSP é a moradia universitária dos estudantes que não possuem condições financeiras pra sobreviver no caos de São Paulo. Alguém por favor me explica o que a polícia estava fazendo lá? Falam que não se tem notícias de estudantes feridos. Então vos pergunto: vc sabe que os veiculos principais de noticias são parciais e defendem a ação da polícia e, portanto, não vão manchar a imagem dela né? Circulam pela rede virtual dezenas de textos de estudantes que viram o ocorrido e, contrários à ocupação ou não, se indignaram com a forma de agir da polícia. Segue aqui um video do cerco no CRUSP e um destes textos.

Desabafo de quem tava lá [Reintegração de Posse]
por Shayene Metri, terça, 8 de Novembro de 2011 às 23:10
Cheguei na USP às 3h da manhã, com um amigo da sala. Ia começar o nosso 'plantão' do Jornal do Campus. Outros dois amigos já estavam lá. A ideia era passar a madrugada lá na reitoria, ou pelas redondezas. 1) para entender melhor a ocupação, conhecer e poder escrever melhor sobre isso tudo. 2) para estarmos lá caso a PM realmente aparecesse para dar um fim à ocupação.
Conversa vai, conversa vem. O tempo da madrugava passava enquanto ficávamos lá fora, na frente da reitoria, conversando com alunos da ocupação. Alguns com posicionamentos bem definidos (ou inflexíveis), outros duvidando até das próprias atitudes. A questão é: os alunos estavam lá e queriam chamar atenção para a causa (ou as causas, ou nenhuma causa)...e, por enquanto, era só. Não havia nada quebrado, depredado ou destruído dentro da tão requisitada reitoria (a única marca deles eram as pixações). A ocupação era organizada, eles estavam divididos em vários núcleos e tinham medidas pra preservar o ambiente. Aliás, nada de Molotov.
Mais conversa foi jogada fora, a fogueira que aquecia se apagou várias vezes e eu levantei a pergunta pra alguns deles: e se a PM realmente aparecesse lá logo mais? Seria um tiro no pé dela? Ela sairia como herói? Os poucos que conversavam comigo (eram uns 4, além dos amigos da minha sala) ficaram divididos. "Do jeito que a mídia está passando as coisas, eles vão sair como heróis de novo", disse um. "Se ele vierem vai ter confronto e isso já vai ser um tiro no pé deles", disse outra. Mas, numa coisa eles concordavam: poucos acreditavam que a PM realmente ia aparecer.
Eu achava que a PM ia aparecer e muito provavelmente isso que me fez ficar acordada lá. Não demorou muito e, pronto, muita coisa apareceu. A partir daí, meu relato pode ficar confuso, acho que ainda não vou conseguir organizar tudo que eu vi hoje, 08 de novembro.
Muitos PMs chegaram, saindo de carros, motos, ônibus, caminhões. Apareceram helicópteros e cavalaria. Nem eu e, acredito, nem a maior parte dos presentes já tinham visto tanto policial em ação. Estávamos em 5 pessoas na frente da reitoria. Dois estudantes que faziam parte da ocupação, eu e mais 2 amigos da minha sala, que também estavam lá por causa do JC. Assim que a PM chegou, tudo foi muito rápido:
os alunos da ocupação que estavam com a gente sugeriram: "Corram!", enquanto voltavam para dentro da reitoria. Os dois amigos que estavam comigo correram para longe da Reitoria, onde a imprensa ainda estava se posicionando para o show. Eu, sabe-se lá por qual motivo, joguei a minha bolsa para um dos meninos da minha sala e voltei correndo para frente da reitoria, no meio dos policiais que avançavam para o Portão principal [e único] da ocupação.
Tentei tirar fotos e gravar vídeos de uma PM que estava sendo violenta com o nada, para nada. Os policiais quebravam as cadeiras no carrinho, faziam questão do barulho, da demonstração da força. Os crafts com avisos dos estudantes, frases e poemas eram rasgados, uma éspecie de símbolo. Enquanto tudo isso acontecia, parte da PM impedia a imprensa de chegar perto da área, impedindo que os repórteres vissem tudo isso. Voltando para confusão onde eu tinha me enfiado: os PMs arrombaram a porta principal, entraram (um grupo de mais ou menos 30, eu acho) e, logo em seguida, fecharam o portão. Trancaram-se dentro da reitoria com os alunos. Coisa boa não era.
Depois disso, o outro grupo de PMs,que impedia a mídia de se aproximar dessas cenas que eu contei , foi abrindo espaço. Quer dizer, não só abrindo espaço, mas também começando (ou fortalecendo) uma boa camaradagem para os repórteres que lá estavam atrás de cenas fortes e certezas.
"Me sigam para cá que vai acontecer um negócio bom pra filmar ali agora", disse um dos militares para a enxurrada de "jornalistas".
A cena era um terceiro grupo de PMs, arrombando um segunda porta da reitoria, sob a desculpa de que queria entrar. O repórter da Globo me perguntou (fui pra perto deles depois da confusão em que me meti com os policiais no início): "os PMs já entraram, não? Por que eles tão tentando por aqui também?". Respondi: "sim, já entraram. E provavelmente estão fazendo essa cena pra vocês terem algum espetáculo pra filmar"
A palhaçada organizada pelos policiais e alimentada pelos repórteres que lá estavam continuou por algumas horas. A imprensa ia contornando a reitoria, na esperança de alguma cena forte. Enquanto isso, PM e alunos estavam juntos, dentro da Reitoria, sem ninguém de fora poder ver ou ouvir o que se passava por lá. Quem tentasse entrar ou enxergar algo que se passava lá na Reitoria, dava de cara com os escudos da tropa de choque, até o fim.
Enquanto amanhecia, universitários a favor da ocupação, ou contra a PM ou simplesmente contra toda a violência que estava escancarada iam chegando. Os alunos pediam para entrar na reitoria. Eu pedia para entrar na reitoria. Tudo que todo mundo queria era saber o que realmente estava acontecendo lá dentro. A PM não levava os estudantes da ocupação para fora e o pedido de todo mundo era "queremos algo às claras". Por que ninguém pode entrar? Por que ninguém pode sair?
Enquanto os alunos que estavam do lado de fora clamavam para entrar, ouvi de um grupo de repórteres (entre eles, SBT): "Não vamos filmar essas baboseiras dos maconheiros não! O que eles pedem não merece aparecer". Entre risadas, pra não perder o bom humor. Além dos repórteres que já haviam decidido o que era verdade ou não, noticiável ou não, tinham pessoas misturadas a eles, gritando contra os estudantes, xingando. Eu mesma ouvi muitas e boas como "maconheirazinha", "raça de merda" e "marginal" .
Os estudantes que enfrentavam de verdade os policiais que faziam a 'corrente' em torno da Reitoria eram levados para dentro. Em questões de segundos, um estudante sumia da minha frente e era levado pra dentro do cerco. Para sabe-se lá o que.
Lá pras 7h30, depois de muito choro, puxões e algumas escudadas na cara, comecei a ver que os PMs estavam levando os estudantes da ocupação para dentro dos ônibus. Uma menina foi levada de maneira truculenta, essa foi a única coisa que meu 1,60m de altura conseguiu ver por trás de uma corrente da tropa de choque. Enquanto eu tentava entrar no cerco, para entender a história, a grande mídia já estava lá dentro. Fui conversar com um militar, explicar da JC. Ouvi em troca "ai, é um jornal da usp. De estudantes, não pode. Complica".
Os ônibus com os alunos presos saíram da USP. Uma quantidade imensa de outros alunos gritavam com a PM. Eu e os dois amigos da minha sala (aqueles da madrugada) pegamos o carro e fomos para a DP.
Na DP, o sistema era o mesmo e meu cansaço e raiva só estavam maiores. Enjoo e dor de cabeça, era o meu corpo reagindo a tudo que eu vi pela manhã. Alunos saiam de 5 em 5 do ônibus para dentro da DP. Jornalistas amontoados. Familiares chegando. Alunos presos no ônibus, sem água, sem banheiro, sem comida, mas com calor. Pelo menos por umas 3h foi assim.
Enquanto a ficha caia e eu revisualizava todo o horror da reintegração de posse, outras pessoas da minha sala mandavam mensagens para gente, de como a grande imprensa estava cobrindo o caso. Um ato pacífico, né Globo? Não foi bem isso o que eu vi, nem o que o JC viu, nem o que centenas de estudantes presenciaram.
Enfim, sou contra a ocupação. Sempre tive várias críticas ao Movimento Estudantil desde que entrei na USP. Nunca aceitei a partidarização do ME. Me decepciono com a falta de propostas efetivas e com as discussões ultrapassadas da maioria das assembléias. Mas, nada, nada mesmo, justifica o que ocorreu hoje. Nada pode ser explicação pra violência gratuita, pro abuso do poder e, principalmente, pela desumanização da PM.
Não costumo me envolver com discussões do ME, divulgar textos ou participar ativamente de algo político do meio universitário. Mas, como poucos realmente sabem o que aconteceu hoje (e eu acredito que muita coisa vai ser distorcida a partir de agora, por todos os lados), achei que valeria a pena escrever esse texto. Taí o que eu vi.


Segue aqui uam série de links sobre a brincadeira da polícia hoje em dia:


http://blogdocappacete.blogspot.com/2011/11/em-cinco-anos-pm-de-sao-paulo-mata-mais.html

http://coletivokrisis.blogspot.com/2010/10/uma-coxinha-com-palito-pimenta-e-troco.html

http://noticias.uol.com.br/ultnot/multi/2011/11/08/04024D1B3772D4912326.jhtm?homens-da-guarda-civil-agridem-moradores-de-rua-em-sao-paulo-04024D1B3772D4912326

E AINDA O ALCKMIN VIRA E FALA QUE OS ESTUDANTES PRECISAM DE AULA DE DEMOCRACIA!!! OS ESTUDANTES!!! PELAMOR...

Você já leu o Bolo'Bolo?


O que é?

Bolo'bolo é um livro de autor desconhecido, publicado pela primeira vez, na Suiça.

Do que o livro fala?

Ele propõe uma forma alternativa de vida para o mundo, em seu mundo, homens não são mais homens, são Ibus. O livro trata do modo de vida dos Ibus.
O autor fundamenta seus argumentos em diversas teorias e autores, voltando à raiz grega das poleis - pequenas cidades autônomas - e sugerindo o fim da propriedade particular, o autor espera ter criado um mundo onde a liberdade enfim existirá.

Onde posso encontrar este livro?

Ele foi publicado pela editora Correcotia e disponibilizado pela mesma neste endereço:
http://correcotia.com/bolobolo/index.html
Você também pode encontrá-lo em atalho à sua direita, é o último endereço em nossa lista de blogs recomendados.

Opinião Pessoal:

Recomendo a leitura, o livro dá várias ideias de ação, além de várias sugestões teóricas plausíveis.
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terça-feira, 8 de novembro de 2011

A Questão da Caridade - Letras Vermelhas

Letras Vermelhas

A Questão da Caridade

Nas duas primeiras postagens - sobre a construção de Belo Monte e a questão da escola adestradora - eu escrevi sobre temas que eu já possuo uma opinião formada - não fechada. Desta vez, resolvi escrever sobre a Caridade, com o intuito de FORMAR MINHA OPINIÃO, tornando assim, você, participante deste texto. Serão nossos comentários e nossas discussões a criar um texto contínuo.

A necessidade existe, pessoas morrem de frio no inverno, de fome nas secas de doenças nas portas dos hospitais... E a melhor maneira de evitar que isto aconteça é construir uma sociedade igualitária. Viver da ajuda mútua. A caridade é coisa passageira. Como exemplo de sua efemeridade segue um texto de Érico Veríssimo:

"Abre a bolsa e tira dela uma nota de vinte mil-réis. Um pensamento lhe assalta a mente: se os repórteres dos jornais entrassem de repente com  fotógrafos...
D. Dodó não gosta de ferir suscetibilidades: entregar o dinheiro na mão da outra, não fica bem. A criatura pode se ofender... Aproxima-se da mesa e com toda delicadeza depõe sobre ela a cédula em que está estampada a imagem dum político que já tomou chá no seu palacete.
Que linda cena para um instantâneo! Tão bonita na sua simplicidade comovente...

"A caridosa dama no momento em que modestamente depunha sobre a mesa a nota de vinte mil-réis que iria mitigar por alguns momentos do sofrimento daquele casal desprotegido da sorte."

Monsenhor Gross havia de gostar tanto, lendo o jornal na manhã seguinte... Que pena os repórteres não saberem... Mas não! Sai Satanás! A verdadeira caridade deve ser feita às escondidas, com modéstia. "Que a tua mão esquerda não saiba o que a direita faz."
A mulher do doente continua parada. Aquilo não significa nada para ela. Ela sabe que quando a senhora perfumada for embora no seu automóvel de luxo, a vida da casa há de continuar como sempre: sujeira, miséria e doença. Ela há de ouvir todas as horas, todos os dias a tosse rouca do marido, há de sentir um cheiro enjoado de remédio, há de ver os filhos atirados por aí, como porquinhos de quintal pobre. Os vinte mil-réis da senhora caridosa serão consumidos em poucos dias na farmácia. É o mesmo que nada. Por tudo isso não chega a ficar contente, nem mesmo consegue sentir gratidão."
(Veríssimo, Érico. Caminhos Cruzados. 26 Edição. Porto Alegre. Editora Globo, 1982. págs 50-51)

Por outro lado, enquanto lutamos pela construção de uma sociedade igualitária - seremos quantos em meio aos 7 bilhões? - sofrem aqueles que não podem esperar. O que fazer? Virar o rosto perante a mão magra que se estende? Sinceramente, muitas vezes não sei o que fazer. As vezes acalmamos nossa consciência - totalmente influenciada pela moral Cristã - dizendo a nós mesmos, ou àquele que estava a nosso lado no momento: Ele ia comprar pinga. Mas, mesmo que o marginal - aquele que vive à margem - tenha escolhido viver de maneira alternativa, ele deve pagar sua escolha com a própria morte?



Como devemos encarar a caridade?

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Mais um passo Palestina, vamos, vamos!

A entrada da Palestina para a Unesco é um grande passo, mas, mesmo assim muito pequeno, afinal, os dias passam, Israel ocupa cada vez mais o território palestino para o estabelecimento de novos bairros, principalmente em Jerusalém Ocidental.

O vídeo a seguir contêm cenas fortes (muitas crianças mortas), se você for sensível (como eu, que infelizmente não fui avisado e, portanto, pego de surpresa) não assista.

O vídeo mostra ataques de Israel à Palestina, mostra o combate institucional que ocorre dentro da própria Israel, mostra questionamentos, mostra judeus não sionistas que se recusaram a lutar contra a Palestina, mostra judeus sionistas que pedem a OBLITERAÇÃO do povo Palestino.


Tem interesse no tema, ou quer saber mais sobre o assunto?
Veja também:





Era uma casa muito engraçada, não tinha teto...

[NOTÍCIA RETIRADA DO PORTAL CMI (Centro de Mídia Independente) ]


Diversos movimentos dos sem-teto ocuparam 12 edifícios em São Paulo, capital, no início desta madrugada. Segundo os manifestantes, pelo menos 3.000 pessoas participam das ações.

Não Podemos Esperar! Somos trabalhadores sem teto. Realizamos os principais serviços para o bom funcionamento desta cidade. Entretanto nossas famílias estão espremidas por um conjunto de necessidades. Lutamos e trabalhamos muito para sobreviver, más a cidade, regida pelas leis do mercado, especialmente imobiliário, impede que nossa renda assegure nossos direitos. Sabemos que a situação de nossas famílias decorre de situação de injustiça histórica. Sabemos também, que nas circunstâncias atuais, nosso sofrimento não tem razão de continuar. Neste dia 7 de novembro, realizamos 12 ocupações em edificios fechados no centro de São Paulo. Veja onde estamos: 2:24 Conselheiro Nébio ? 450 pessoas Contato: 8880.9022/88937885 (Elizangela / Geni) MSTN 2:20 Avenida São João, 617 ? 400 pessoas Contato: Carmem (11) 9680.7409 MSTC 2:20 Avenida São João, 613? 300 pessoas Contato: Adriano ASTC (11) 8510.3996 / 6264.4371 01:43 300 pessoas na Av.São João n° 625 esquina com IPIRANGA Contato Osmar 9516.0547 302.8197 Tereza Lara 7054-3947 01:25 ....... 300 pessoas ocupam imovel na Rua Borgens Figueredo n°1358 Mooca Contato Luiz 9715-5798 01:14 Rua Carlos Guimarães / Prédio da CDHU ? Bº Belém A POLICIA e CONSTRUTORA ATRAPALHAM A MANIFESTAÇÃO) Dito (11) 7250-0699 Mario (11) 6337-5059 Douglas (11) 6662-0925 00:40 Rua Carlos Guimarães / Prédio da CDHU ? Bº Belém A POLICIA JÁ CHEGOU E TENTA ACABAR COM A MANIFESTAÇÃO PACIFICA Contatos: Dito (11) 7250-0699 Mario (11) 6337-5059 Douglas (11) 6662-0925 00:36 4° Ocupação Av. São João n° 601 300 Pessoas Contatos Cida 6110-6289 Gegê 8419-3302 00:30 3°Ocupação no predio Pão de Açucara 400 pessoas Rua;Conselheiro Nebias n° 314 Contato Nelson 7604-4219 ou 8644-4219 00:08 Rua Carlos Guimarães ? Bº Belém Contatos: Dito (11) 7250-0699 Mario (11) 6337-5059 Douglas (11) 6662-0925 00:00 RUA TABATINGUERA, EM FRENTE AO NUMERO 277 150 PESSOAS Por isso, nos organizamos e ocupamos esses imóveis abandonados, sem função social respaldados por nossas Leis, que assegure nosso direito à moradia e por meio de nosso direito de agir. Fala-se em projetos habitacionais em 53 prédios no centro, outros em tal lugar, mais não sabemos onde. O que sabemos é que nada se desenvolve nada está chegando até nossas famílias. Por essas razões estamos aqui, ocupando os imóveis abaixo relacionados. Exercendo nosso direito, conferido por nossas Leis: A liberdade de organização e expressão para fins lícitos: O Direito a Moradia. Não queremos, não podemos e não devemos continuar sofrendo por ausência de nosso Direito à Moradia. Vamos iniciar já nesses imóveis e terrenos abandonados um amplo Projeto Habitacional para famílias de baixa renda. Os Movimentos de Moradia abaixo relacionados solicitam a Secretaria Municipal de Habitação ? SEHAB, Companhia Metropolitana de Habitação ? COHAB, Secretaria Estadual de Habitação e CDHU início de uma Política Habitacional para o Centro, que já no orçamento de 2012 os seguintes atendimentos: Cumprimento da Resolução do CMH nº 34/2008, que refere ao reembolso da SIURB referente ao valor do Edifício São Vito (na época era de aproximadamente R$ 8 milhões) para assim viabilizar habitação social, atendendo aos movimentos de moradia do centro; 5.000 Unidades habitacionais para o atendimento no Programa de Locação Social; 2.00 endimentos no Programa Carta de Crédito Municipal; 5.000 Atendimentos no Programa Bolsa Aluguel para situações emergências até o atendimento definitivo; As famílias que receberam Bolsa Aluguel passem a ser atendidas com moradia definitiva através da carta de crédito da CDHU; Atendimento da demanda dos movimentos de moradia que atuam efetivamente no centro nos 53 prédios que estão sendo desapropriados pela Prefeitura; Atendimento da demanda dos movimentos de moradia que atuam efetivamente na área central há anos no empreendimento habitacional na área da SPU ? Secretaria do Patrimônio da União/Pari (Feira da Madrugada), de acordo com o governo federal; Atendimento das famílias do Edifício São Vito e Mercúrio que ficaram sem atendimentos; Empreendimentos de HIS nos terrenos Belém e Bresser XIV e XV. SEGUEM AS REIVINDICAÇÕES ESPECIFICAS DE CADA MOVIMENTO: ULC ? Unificação das Lutas dos Cortiços Cumprimento de aporte de recursos para o empreendimento localizado na Rua Maria Domitília (edifício do INSS) convênio assinado desde 2007; Garantia do atendimento das 53 famílias da Vila Monumento (Minha Casa Minha Vida), acordado desde 2008; Garantir a viabilização do atendimento dos imóveis indicados pelo movimento para desapropriação e produção de habitação de interesse social: Rua dos Franceses 230 e Rua Conselheiro Carrão 379, ambos no bairro da Bela Vista; Cota de atendimento do Parceria Social. MSTC ? Movimento dos Sem Teto do Centro Viabilização do Edifício Prestes Maia; Viabilização Edifício da Rua Mauá 340; Atendimento da demanda da Avenida Nove de Julho (Edifício do INSS); Viabilização dos imóveis indicados para desapropriação e produção de habitação de interesse social; Cota de atendimento do Parceria Social. MMC ? Movimento de Moradia do Centro Retomada do projeto paralisado da Rua do Carmo (atendimento da demanda); Atendimento remanescente do Empreendimento da Rua Riachuelo; Viabilização dos prédios indicados pelo MMC para a Secretaria de Habitação; Cota de atendimento do Parceria Social; Atendimento às famílias da ocupação da Rua Japurá que não foram atendidas.MMRC ? Movimento de Moradia da Região Centro Demanda de 60 famílias pendentes de atendimento do despejo do Edifício Plínio Ramos ocorrido em 2005. Cota de atendimento do Parceria Social. Associação Conde de São Joaquim Retomar o diálogo sobre o prédio reformado da Rua Conde de São Joaquim - que a demanda foi usada para atendimento das famílias moradoras da Vila Itororó (deixando a Associação da Conde de SãoJoaquim sem atendimento); Retomar a discussão de atendimento da Parceria Social das famílias despejadas da favela da Rua Vergueiro, cortiço da Brigadeiro Luiz Antonio e cortiço da Galvão Bueno que não foram atendidas; Viabilizar empreendimento habitacional no terreno do IPESP na Rua Vergueiro; Retomar a discussão de atendimento do Parceria Social das famílias moradoras dos galpões da Rua Conde de São Joaquim 140, 162 e 174. Cota de atendimento do Parceria Social. ASTC ? Associação dos Sem Teto do Centro Demanda a ser atendida do Largo Redentor e Rua Oiapoque; Cota de atendimento do Parceria Social. GARMIC ? Grupo de Articulação por Moradia para Idoso da Capital Construção de Vila de Idosos em cada Subprefeitura; Atendimento dos idosos no Programa Parceria Social. FOMMAESP Inicio imediato dos empreendimentos para as famílias do acampamento Olga Benário, localizado na zona sul de São Paulo , Parque do Engenho. Cuprimento dos contratos com as assessorias técnicas. Divilgação do edital de habilitação das entidades , para novos projetos habitacionais . MSTN/MLV Destinação de terreno de propriedade da CPTM para o programa MCMV, localizado nas imediações da Estação Vila Clarice Zona Oeste de São Paulo MSTRU/TNG/ MMJI Atendimento habitacional das 840 famílias removidas do Acampamento Alto Alegre na Zona Leste de São Paulo, Atendimento das 240 famílias cadastradas na Câmara Municipal e 37 famílias removidas pela Subprefeitura em Vila Iolanda; Atendimento habitacional para 82 famílias da ocupação São 588 Desapropriação de galpão localizado na Rua Borges Figueiredo 1358 para atendimento habitacional de famílias moradoras de cortiço. Destinação de terreno da CEAGESP entre as ruas Capitão Maior e rua do Bosque para o programa Minha Casa Minha Vida. Por fim: Ninguém deve temer a democracia, queremos aprofundar a democracia com os três entes federados para atender o mais breve possível as famílias organizadas nos movimentos que assim este documento: MSTC ? Movimento dos Sem Teto do Centro ? 6120.1503(Neti)9680.7409(Carmem) ULC ? Unificação das Lutas dos Cortiços ? 6158.2604/6698.5331(Sidnei) MMC ? Movimento de Moradia do Centro -5747.8042/ 8419.3302(Miriam/Gegê) MMRC ? Movimento de Moradia da Região Centro 6512.0730/8644.4219 (Nelson) Associação Conde de São Joaquim - 6857.3488 ASTC ? Associação dos Sem Teto do Centro ? 8510.3996/6264.4371(Adriano) GARMIC ? Grupo de Articulação por Moradia para Idoso da Capital MMTNG ? Movimento de Moradia Terra de Nossa Gente ? 7193.7127/9872.6682(Helô, Maria) MSTRU ? Movimento Sem Teto pela Reforma Urbana ? 9715.5798 ? (Luiz) MSTN ? Movimento Sem Teto Norte -8880.9022/88937885 (Elizangela/Geni) MLV ? Movimento Lutar e Vencer Apoio: Frente de Luta por Moradia ? 9516.0547/8302.8197 (Osmar ) União dos Movimentos de Moradia ? 3667.2309/6158.2604(Sidney) CMP ? Central de Movimentos Populares ? 7223.8171(Raimundo) São Paulo,07 de Novembro 2011

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A Escola está a favor ou contra o conhecimento?

Letras Vermelhas

A Escola está a favor ou contra o conhecimento?

Faz muito tempo que me pergunto qual a verdadeira finalidade da escola. Parei de acreditar na ingênua promessa de que a escola é difusora de conhecimento, aliás, passei a perceber quão inúteis são os "conhecimentos" passados pela escola. Passei a buscar a um outro sentido para a educação escolar - desenvolver o raciocínio a criatividade e o corpo (como os gregos antigos!), por exemplo, seria mais útil.
Percebi que dizer "educação escolar" é uma ofensa ao conceito de educação, o mais correto é dizer "adestramento escolar", pois, é isso que a escola faz. Adestra.

Na escola aprendemos a respeitar os sinais. alarme soa, hora de entrar, alarme soa, hora de comer, alarme soa, hora de voltar, alarme soa, hora de ir embora. O professor fala, você concorda e respeita. Faça suas atividades, memorize informações - mesmo se não encontrar um fim prático para elas. Assassine sua força de vontade, ignore seus hormônios, sufoque sua criatividade. Sua vontade deve ser a vontade daquele que é seu superior, sempre. 

E nós, terminamos a escola assim como os cães concluem seu treinamento, alguns mais, outros menos, mas, todos com a "obediência" instalada em nossas cabeças. Deixamos de ser as inúteis crianças improdutivas e passamos a ser seres produtivos. Prontos para o mercado de trabalho.

O que traz outra questão a tona:

Trabalhamos para viver ou vivemos para trabalhar?

Já nem sei mais...

Recentemente me deparei com este texto do Rubem Alves que diz muito a esse respeito de uma forma bem dinâmica:

Pinóquio

Prometi e fiquei devedor. Disse antes que era um dever de honestidade contar a estória do Pinóquio às avessas. Depois de muito pensar, concluí que honestidade é pouco. É bondade que devemos às crianças. É preciso quebrar o feitiço das estórias que se repetem... Um bonequinho de pau, tão inofensivo... Mas já se tornou hóspede da imaginação dos meninos, e vai repetindo suavemente aquelas lições que dizem que quem não vai à escola não chega a ser humano. Claro que há pessoas que se metamorfoseiam em burros, havendo mesmo algumas que alcançam a dignidade de mulas-sem-cabeça. O que é duvidoso é que o agente de tão dramática transformação seja a falta da escola. As evidências indicam a falsidade da hipótese: as crianças de carne e osso que entram, pra sair transformadas em bonecos de pau.
Assim, peço licença ao leitor acostumado ao sisudo discurso da Ciência. Quero brincar de Lewis Carroll. Entrar de mãos dadas com a Alice, espelho a dentro, onde tudo acontece às avessas. Há uma magia nas imagens invertidas. Parece que, para se ver bem o real, é necessário pôr os óculos da fantasia. E assim começa a estória às avessas...
...Era uma vez um menininho, de carne e osso, igual a tantos, que se deleitava nas coisas simples que a vida dá. Ria nos seus mundos de faz-de-conta, voava nas asas dos urubus, assustava os peixes, nariz achatado nos vidros dos aquários. Assobiava para os perus, andava na chuva - todas estas coisas que as crianças fazem e os adultos desejam fazer, e não fazem, por vergonha. Sua vida escorria feliz por cima do desejo.
Não sabia que uma conspiração estava em andamento. tudo começara bem antes, quando um nome lhe fora dado. Nome do pai. Claro, confissão das intenções: que o menino sem nome e sem desejos aceitasse como seus o nome e os desejos de um outro que ele nem mesmo conhecia. Filho, extensão do pai, realização de desejos não realizados, sobrevivência do corpo, uma pitada de onipotência, uma gota de imortalidade.
"Que é que vais ser quando crescer? Médico? Diplomata? Cientista?"
E as conversas se prolongavam, temperadas com sorrisos e boas intenções, enquanto silenciosas se teciam as malhas do desejo em pai e mãe esperavam colher/acolher/encolher o menino dos desejos tão simples...
Até que chegou o dia em que lhe foi dito:

- É preciso ir para a escola. Todos os meninos vão. Para se transformarem em gente. Deixar as coisas de criança. Em cada criança brincante dorme um adulto produtivo. É preciso que o adulto produtivo devore a criança inútil.

E assim aconteceu. Há certos golpes do destino contra os quais é inútil lutar.
O menino de carne e osso aprendeu coisas curiosas: nomes de heróis, frases que teriam dito, as alturas de montes onde nunca subiria, as funduras de mares onde nunca desceria, a distância entre galáxias, o "se", partícula apassivadora, o "se", símbolo de indeterminação do sujeito, nomes de cidades de países longínquos, suas populações e riquezas, fórmulas e mais fórmulas...
Sabia que tudo aquilo deveria ter um motivo. Só que ele não entendia. O desejo permanecia selvagem. E disto eram prova aquelas notas vermelhas no boletim, testemunhas de como o menino cavalgava longe do desejo dos outros, conspiradores secretos, escondidos na monotonia dos currículos que não faziam seu corpo sorrir...
"Pra que serve tudo isso?", ele perguntava.
O pai respondia, sábio e paciente:
- Um dia você saberá. Por hora basta saber que papai sabe o que é melhor para seu filho...
O menino cresceu. E aconteceu que, em meio às suas rotinas, veio a se encontrar com dois cavalheiros bem vestidos e de fala branda, que se puseram a contar estórias de um mundo encantado sobre o qual ele nunca ouvira falar. Eles disseram que heróis em aventais brancos, cavalgando microscópios e telescópios, brandindo máquinas fantásticas e aparelhos misteriosos, em meio a líquidos mágicos que faziam viver e morrer, encastelados em templos onde as coisas visíveis ficavam invisíveis e as coisas invisíveis ficavam visíveis, e lhe disseram de prodígios de verdade, e lhe perguntaram se ele não desejava se transformar num mago, num artista... A recompensa? O poder, o conhecimento de segredos que ninguém conhece, a glória, ser olhado por todos como um ser diferente, sublime, superior. Se os seus prodígios fossem maiores que os de todos, ele poderia aparecer no palco supremo da ciência, em país distante, onde os mortais se revestem de imortalidade...
O menino grande se lembrou dos sonhos do menino pequeno. E sorriu. Finalmente, chegara o momento da sua realização. Estranho que os narizes dos respeitáveis cavalheiros tivessem crescido enquanto falavam. Mas, logo o tranquilizaram:
- É só pra te cheirar melhor, meu filho...
Começaram as transformações. Primeiro os olhos, Já não refletiam outros olhares e nem borboletas... Aprenderam a concentração, a disciplina. Depois o corpo, que desaprendeu a dança, o voo dos papagaios e o brinquedo. Era necessário dedicar-se totalmente. Os pensamentos abandonaram as fantasias e os contos de fadas. Passaram a morar no mundo das fórmulas e dos experimentos. Até o prazer da comida se satisfez com os sanduíches rápidos do almoço, e na cama o corpo se esqueceu do corpo...
E aprendeu coisas preciosas. Que o corpo do cientista é neutro. Que ele não se comove por considerações de valor ou prazer. Que está acima da vida e da morte (isto é coisa de políticos, militares e clérigos), em dedicação total ao saber. Bastava-lhe ser um devotado servidor do progresso da Ciência.
Mas, tantos sacrifícios acabaram por receber merecida recompensa. A sorte soprou, favorável, e de se corpo diferente surgiu uma nova magia, e o palco da imortalidade lhe foi aberto. Lá, perante todos, compreendeu que valera a pena. Duas lágrimas lhe rolaram pela face.
Já não era o menino de outrora, carne e osso. Crescera. Estava diferente. Os aplausos de madeira enchiam a sala. Era a glória. E foi então que o milagre aconteceu. O recinto se encheu de suave luminosidade, e a Mosca Azul, que até então só habitara os seus sonhos, veio de longe e roçou seu rosto com suas asas. E a grande transformação aconteceu. Era um boneco de madeira, inteligência pura, sem coração. E os milhares de bonecos iguais, de pé, não paravam de tamanquear os seus aplausos ao novo irmão, enquanto gritavam seu nome:
"Pinóquio, Pinóquio, Pinóquio..."

Conto retirado do livro "Estórias de Quem Gosta de Ensinar" de Rubem Alves (Reproduzido na integra com permissão verbal do autor, concedida em 19/10/2011 - Indaiatuba).


Mudando os Paradigmas da Educação

Sobre como a escola limita a capacidade criativa das crianças em prol do adestramento para o mercado de trabalho, recomendo este vídeo também:



Considerações Finais

O que nós, adultos, frustrados, problemáticos, temos para ensinar às crianças são os mesmos modos de acorrentamento à uma sociedade que nos faz mal? Não seria melhor ensinarmos a elas, simplesmente, o que  faz feliz? Hoje, hiperatividade é uma doença tratada com calmantes, achar as coisas (que são realmente mais interessantes) mais interessantes do que a aula é "desvio de atenção". 
O problema está no sistema doentio onde as pessoas apostam a vida e perdem, então resolvem apostar a vida do filho achando que o resultado será diferente. E qual a solução? Talvez a solução seja simplesmente Viver e Deixar Viver, talvez a solução seja começar a perguntar "eu preciso mesmo disso?".

Salam! (Paz)

A mudança começa aos poucos. Já começou por aqui.