domingo, 1 de abril de 2012

Dica Krisis: O homem que sabe - do Homo Sapiens à crise da razão


"A mudança sempre foi uma característica de tudo o que vive, especialmente a vida orgânica, marcada por um sistema de trocas, de retroalimentação constante, e, mesmo o inorgânico, uma pedra, hoje sabemos, também esta em movimento. Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, dizia Heráclito, não apenas porque as águas correm, mas porque nós também não somos o mesmo, nunca. Assim como a natureza, a cultura sempre esteve marcada por mudanças, me lembro do meu avo assistindo TV e esbravejando a perdição da juventude. Com tudo isso, podemos perguntar, o que há de novo nos impasses que a cultura hoje enfrenta?

Acredito que exista sim uma especificidade em nosso tempo, que instaura uma mudança nas estruturas mais profundas da cultura. Não vivemos, eu penso, apenas uma mudança, mas uma interseção de mudanças que aponta para a emergência de um novo homem e de uma nova sociedade. Três são os eixos desta transformação: a exaustão ambiental e a instabilidade climática, gritando em nossos ouvidos a fragilidade da cultura e reinstaurando o valor da vida; a revolução tecnológica com sua radical mudança de meios, fazendo a civilização sair de um modelo linear de raciocínio e comunicação para um modelo complexo que se estrutura em redes; uma reordenação nas relações de poder da sociedade, que, em função da crise ambiental e das novas tecnologias, sai do modelo piramidal para uma estrutura hierárquica horizontalizada onde quem manda e quem obedece estão sempre muito próximos, além de uma reordenação econômica que se deu entre países ricos, pobres e emergentes. Da somatória destes três eixos temos como resultante uma radical e profunda mudança de valores, e toda mudança de valores traz conseqüências significativas. Estamos saindo, hoje, de um capitalismo de produtos para um capitalismo de conceitos, do real ou do atual para o virtual. Diante de novas e inusitadas questões, diante da queda de valores e da emergência de novos, torna-se necessário voltar ao começo: quem somos, quem queremos ser e qual a sociedade em que queremos viver?

O livro “O Homem que Sabe- do homo Sapiens a crise da razão” busca refazer a trajetória desta transformação, que começa com o surgimento da consciência, com o início dos rituais fúnebres, há cem mil anos, inaugurando o desdobramento moral que instaura o primeiro valor, a vida, passando pelo nascimento das interdições, ou seja, das leis, como a que exige que os corpos não sejam deixados como alimento a outros animais, e, ao mesmo tempo, como o outro lado desta mesma moeda, a transgressão, como suspensão provisória da lei permitindo as festas e o erotismo. A seguir, discutimos o surgimento da linguagem estruturada como o filtro que configura o mundo em signos, como mapa do mundo, que terminara por produzir estruturas conceituais cada vez mais elaboradas. A mitologia grega é então pensada como um esboço do mundo, um sistema que se utilizando da arte nos conta o mundo, o apresenta por meio de signos, de relatos, de linguagem. Falamos da epopéia e da tragédia grega como dois modos distintos de lidar com a dor, com a morte e com a vida; agora a morte aparece não como experiência refletida como consciência e valor, mas como fundamento de novos valores. A beleza como uma forma de maquiar a dor, e a arte como uma maneira de fortalecer o homem para lidar com o sofrimento constitutivo da vida. E, a seguir, falamos do nascimento da razão na Grécia clássica, como o primeiro modelo estruturado, não mais do mundo, mas do homem. A razão é então vista como uma linguagem que busca afastar a mudança, as contradições, em busca do imutável, da verdade. Agora o homem surge como um valor, e acredita, como sujeito que age, poder atingir, pela via da causalidade, a ferida da existência, a morte e a dor, e cura-lá. Aqui nasce o modelo de homem e de pensamento, a razão, que nos constituiu ate o século XX, mas que se desintegra enquanto este século caminha em direção ao século XXI. Se a razão grega foi, de algum modo, fortalecida pelo pensamento moderno com seu fanatismo pelo controle da natureza, dando ao mesmo tempo lugar ao surgimento da revolução industrial e do capitalismo de produtos, por outro, a exaustão desse modelo, seu esgarçamento, ocorre como tecido que se rompe permitindo não mais uma linha que segrega, quando julga o bem ou mal o certo ou o errado, mas uma multiplicidade de linhas e valores que se entrecruzam em uma rede, ou em redes de valores, de relações e de informações, de conhecimentos. Falo então de um novo modelo de razão mais ampliado, trazido pelo pensamento kantiano, que inclui a arte como um dos pilares desta razão que não é apenas teórica e prática, mas sensorial e estética. E, enfim, termino o livro afirmando esta razão ainda mais ampliada por Schiller e NietZsche, que afirmam, cada um a seu modo, a necessidade de repensar o pensamento e a educação como espaço de produção e reprodução de saberes. Educar para a vida, afirmar a vida e seu valor, acima das excessivas configurações de linguagem que sustentaram as castas, as exclusões que marcaram a civilização ate aqui. Sempre afirmando a arte, a criação, o lúdico, como uma necessidade deste homem que sabe, desde que se tornou humano, que um dia vai morrer."

Breve artigo escrito por Viviane Mosé sobre sua obra "O homem que sabe - do Homo Sapiens à crise da razão" 

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